Você está navegando por: Notícias Artigos
Assine o nosso Feed de Artigos

A Ida (Sem Volta) do boêmio

Publicada em 15 de Junho de 2010 às 10h49 Versão para impressão


* Por Ferrer Freitas




Por esses dias morreu no interior de Goiás, em uma cidadezinha de nome Senador Canedo, situada entre Goiânia e Brasília, onde residia há vários anos, o oeirense Geraldo Nogueira, de 78 anos. O sobrenome ilustre é do pai, Sebastião, o velho Bastim, filho do Sr. Antônio Francisco Nogueira, mais conhecido por Antônio Tapety, e irmão, entre outros, de Benedicto Francisco, o extraordinário bardo Nogueira Tapety A mãe chamava-se Leomiza, que morava com este único filho em casinha situada na margem esquerda do riacho “Pouca Vergonha”, bem próxima da barranca, de relativa altura, onde o leito é um lajedo só. Leito é força de expressão, pois ali, de há muito, não há corrente, a não ser nas enxurradas de pesadas chuvas a partir das grotas. A casa continua no mesmo lugar, hoje Praça 24 de Janeiro, resistindo, embora Leomiza tenha se ido há muitos e muitos anos.

De vocação irresistível para a boemia, Geraldo era um moreno bem aparentado, de média estatura, mais para baixa , que gostava de vestir-se bem. Nisso aproveitava-se da exímia passadora de roupa que era a mãe. Como ficava prosa numa calça de linho branco! Integrava o regional formado por Levi (piston), Chico Baião (saxofone), Pedro de Ernesto (tuba), Osiris (trombone de vara), Zé da Guia filho (bateria) e Antônio Dentim (banjo). Seu negócio era a percussão e a fazia com um instrumento que hoje se chama afoxé, mas que, à época, não passava de cabaça com contas lembrando um rosário. Também cantava, com voz afinada. Notívago empedernido, estava sempre presente nas serenatas e gostava de cantar um velho bolero de título “Cantor de Rua”, de versos iniciais assim: “Sim, esta canção é sua,/é um hino apaixonado/de um cantor de rua...”. Acho que de Levi e Queiroz Neto. De tanto repeti-lo, ficou até conhecido pelo seu nome.

Aí, acredito que ainda nos anos de 1960, arribou, escafedeu-se, ganhou o mundo, na busca de afazeres. Naquele tempo Oeiras não oferecia oportunidade nenhuma de trabalho. Por esse tempo, ou pouco antes, também se foram Osiris, Benedito e Newton , os três, filhos de Cícero Cego, e Levi, todos músicos virtuosos. O Newton, de apelido Gueré, parece-me que ainda vive e, segundo soube, reside em Campina Grande. Tocava clarinete como ninguém! De todos, incluindo Geraldo, o único que ainda fez algumas visitas a Oeiras, duas ou três, foi Levi. Os outros, nunca voltaram pra matar saudades de um tempo feliz que passou. A notícia da morte de Geraldo Nogueira chegou-me por e-mail do meu primo Naziazeno, que reside em Goiânia. Há uns três anos visitou-o e trouxe-me algumas tomadas contidas em DVD. Surpreendeu-me que ainda estivesse muito bem, embora sem aquele tão bem cuidado penteado, pela calvície acentuada. Mando aqui à sua Luzia e filhos o meu abraço de profundo pesar, em especial à Geraluzia pela idéia poética do nome.




(*) Ferrer Freitas é do Instituto Histórico de Oeiras


» Siga-nos no Twitter
» Siga no Orkut


Veja mais notícias sobre Artigos.


Palavras-chaves: Boêmio - Luto
Fonte: Mural da Vila  |  Edição: Lameck Valentim

Comente através do Facebook

Veja também

Comentários (5)

  • Ferrer Freitas, Teresina-PI disse:
    Deixado em 20/06/2010 às 09h14

    Caro Rogério, seu comentário mexeu comigo, como não poderia deixar de ser, pois vindo de um cronista de seu nível, teria que mexer, e muito! Quando da morte de Armando Nogueira, lembrei-me muito de Você. Sempre tive em mente a idéia de tentar fazer chegar ao cronista-poeta de Xapuri (Acre) sua crônica sobre Garrincha, a propósito da ida deste a Oeiras. Digo isso pelos textos antológicos do notável jornalista sobre Mané. Num deles encontra-se esta pérola, que, se não me engano, foi dita mais ou menos assim: "a superfície de um lenço, para ele, era um latinfúndio." Outra genial foi dedicada ao velho Nilton Santos, que fez 85 anos há pouco tempo: "Em campo parecia tantos e, no entanto, eras um só, Nilton Santos." Tenha a certeza, caro Rogério, que comentários como o seu dão um ânimo danado para continuar escrevendo, dentro do que me propus até agora. É aquilo mesmo, cara!

  • rogério newton, João Pessoa-PB disse:
    Deixado em 19/06/2010 às 15h08

    Caro Divino Côco, concordo com o que você falou. Porém (e sempre tem um porém, como diria Plínio Marcos), não acho que o texto de Ferrer seja "comentário", mas uma crônica. Há muito, Ferrer vem se dedicando a esse incompreendido gênero literário. Sua matéria-prima sempre foi Oeiras, de onde retira tipos humanos, casas antigas, clérigos, serenatas, solos distantes de memórias boêmias... Embora essa crônica do Ferrer, como muitas outras, fale, na visão do cronista, de ?um tempo feliz que passou?, talvez um dos seus maiores méritos seja nos revelar certa memória social e afetiva. O cronista e a pessoa humana do Ferrer têm verdadeira adoração por homens e mulheres simples e inesquecíveis que viveram ou ainda vivem em Oeiras. Por isso salva os que pode da devoração de Cronos. E salva a nós mesmos pela oportunidade de receber o afeto que essas crônicas encerram.

  • Cassí Neiva, Oeiras-PI disse:
    Deixado em 18/06/2010 às 11h51

    Prezado Ferrer,
    Parabéns pelo excelente texto que evoca com saudosismo o nobre oeirense Geraldo. Aos familiares do mesmo o nosso profundo pesar.

  • Ferrer Freitas, Teresina-PI disse:
    Deixado em 16/06/2010 às 17h00

    Grato, Divino. Ele era também chamado pelos amigos de Geraldo de Leomiza, esta, sua mãe, uma mulher pequena e muito alegre. Frequentava muito a casa de dona Regina Carvalho, mãe de Rosa, Ana e de um filho-homem falecido moço, de quem só ouvia falar pelo apelido de Didi. A velhinha Regina, era chamada por muitos, sobretudo pelos meninos de Lalá e João Burane, de Gingina. Ela criou ainda uma mulher divertidíssima conhecida por Lindoca, mãe de Zezé, viúva de Fernando de Joaninha e Daniel. Lembra dele? Lindoca era costureira e só vestia preto, desde a morte de seu marido, assassinado de modo covarde, segundo contava. É isso aí, velho Divino. Raimundinha, sua mãe, com seus olhos verdes, também deixou muita saudade.

  • Baltazar Dias Monteiro, Teresina-PI disse:
    Deixado em 16/06/2010 às 11h23

    Mas uma vez Ferrer, voce nos brinda com comentários pra lá de primorosos, apesar da noticia da partida do Sr. Geraldo, a quem não conheci, mas houvi falar, deixo aqui também minhas condolências aos familiares.

Comentário

Comente


Publicidade Casa do Frango
Publicidade Construtora
Publicidade Passe a Limpo - Gráfica rápida
Publicidade Lanches e Cia
Publicidade Posto Chico
Publicidade Honda Direito
Publicidade Spazzo
Publicidade Café Oeiras
Publicidade Glamour
Publicidade Color system