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A Velhice

Publicada em 16 de Agosto de 2010 às 00h23 Versão para impressão


Por Ferrer Freitas




Taí um tema por demais recorrente, o envelhecimento, ou como gostam os poetas, a fase outonal da vida. Meu avô Ferrer, figura emblemática de Oeiras, era um aventureiro na verdadeira acepção do termo. Parecia que veio ao mundo, o que ocorreu na última década do século XIX, pra levar a vida na valsa. Pintou e bordou e morreu com mais de oitenta anos. Gostava, no entanto, de repetir que a velhice era uma miséria e que velho servia até pra fazer medo a criança, pois presenciava muita mãe ralhar com filho ameaçando chamar um velho se ele não se comportasse.

O maior dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues, quando perguntado que conselho daria aos moços, respondeu de forma incisiva: “que envelheçam!” Enfartou de tanto cigarro, antes de chegar aos setenta. Esse mesmo entendimento levou o genial compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, ainda não tão velho (morreu com 60 anos) a compor, entre outros belíssimos sambas-canções, um de título “Esses moços, pobres moços”, de versos iniciais assim: “Esses moços, pobres moços,/ah, se soubessem o que sei./não amavam, não passavam/aquilo que já passei!...”. A grande atriz Tônia Carrero, segundo muitos o mais belo rosto no Brasil do século XX, quando perguntada como encarava a velhice (faz 88 no dia 23 de agosto), saiu-se com esta pérola: “muito bem, levando em conta a outra alternativa!”. Em outras palavras, só não envelhece quem morre moço.

Bem, mas porque abordo o tema, já que não me considero um idoso, embora tenha passado de “meia ponto cinco”, idade levada em conta para tornar alguém um? De cara respondo. Porque acho que nenhum outro país trata seus idosos tão mal como o Brasil. Mesmo existindo uma lei (estatuto) adrede para protegê-los, muita gente está se lixando. O que se vê em bancos, supermercados, ônibus é uma lástima, como diria o caro jornalista Deoclécio Dantas. No caso dos supermercados então, nem se fala. Na maioria das lojas há caixas para atendimento preferencial, mas dificilmente o empregado tem coragem de parar um cliente jovem para dar vez a um idoso. Nos de atendimento exclusivo ainda há um certo respeito, mas pessoas que aproveitam promoções de pagamento a longo prazo (cheque-pré), muitos merceeiros, têm a desfaçatez de levar um velhinho de casa a tiracolo pra ter vez com seus dois ou três carros, daqueles maiores, abarrotados de compras. É pagar pra ver, sem trocadilhos!

Não falarei do atendimento em agências bancárias, pra não ser entediante. Com relação a ônibus, devo dizer que nunca vi um moço levantar-se para ceder a cadeira a um idoso. Talvez seja porque pouco ando em coletivos, menos por não gostar e sim pela longa espera por eles. Finalmente, não custa repetir aos jovens de hoje o óbvio: eles serão os idosos de amanhã, a não ser, evidentemente, que advenha a alternativa de que fala a ainda bela Tônia Carrero, metaforicamente, “a indesejada das gentes” do poeta Bandeira 


Ferrer Freitas é do Instituto Histórico de Oeiras



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Palavras-chaves: Velhice - Ferrer Freitas
Fonte: Da Redação  |  Edição: Lameck Valentim

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Comentários (8)

  • Ferrer Freitas, Teresina-PI disse:
    Deixado em 05/10/2010 às 16h35

    Caro Heitor, o meu "Ferrer" não é sobrenome e sim complemento do nome composto "Pedro Ferrer", herdado do meu avô materno. Aqui em Teresina, onde resido (sou de Oeiras, primeira capital do Piauí), o atual prefeito que, se não me engano, é de Lavras das Mangabeiras (CE) tem o sobrenome "Férrer" (com acento no primeiro "e"). Trata-se de cidadão educado e de fácil que, com certeza, poderá tirar suas dúvidas. De qualquer modo, estarei sempre à sua disposição.Cordial abraço.

  • Heitor Feitosa Macêdo, Crato-CE disse:
    Deixado em 28/09/2010 às 02h26

    Ferrer, desculpe-me se eu for inconveniente, mas é que gostaria de saber da origem desse seu sobrenome, "Ferrer". isto por que estou ensaiando um artigo sobre um ramo desta família, sei que muitos migraram para o Piauí. O tronco a que me refiro é ao dos descendentes do capitão Salústio Tertuliano Bandeira Ferrer, pernambucano arraigado no sertão dos Inhamuns e do Cariri cearense. Este teve os filhos: Luiz Ferrer (herói da Guerra do Paraguai); Fausto; Salústio, Epifânia Estefânia Bandeira Ferrer e salustina Tertulina Bandeira Ferrer. Obsequiosamente, se o amigo conhecer esses nomes ou qualquer informação sobre tais indivíduos, serei muito grato.

  • antonio amorim de souza, Brasília-DF disse:
    Deixado em 24/08/2010 às 22h31

    Cumpadre Ferrer, eu estou morando em Brasília, por favor, quando da sua viagem à Goiânia, não se esqueça de visitar-me. Estarei em Oeiras, no dia 1°.09.2010. Um abração do amigo Toim de Aderson.

  • Ferrer Freitas, Teresina-PI disse:
    Deixado em 24/08/2010 às 16h59

    Caríssimas Cassi e Maryllia, muito obrigado. É extremamente gratificante receber parabéns por um texto elaborado com muito amor.

  • Ferrer Freitas, Teresina-PI disse:
    Deixado em 24/08/2010 às 12h13

    "Cumpade Tõim", puxa, que surpresa agradável seu comentário. Tenho perguntado ao Valderi por você. Sinto também muita saudade dos tempos de Rio. Estou me programando para uma ida a Goiânia em outubro próximo, quando farei o possível pra passar uns dois dias aí em Brasília. Minha filha, Juliana, médica, esta fazendo residência em Goiânia e não quero perder a oportunidade de estar com ela, o bem maior. Aproveito para recomendar a esse Amigo a leitura de outra crônica que está neste portal. O título é: "A Ida (sem volta) do Boêmio". Falo do Geraldo Nogueira (ou de Leomiza) quando do seu falecimento, há uns seis meses atrás. Grande abraço, siô. O velho Bena se foi, para tristeza dos amigos.

  • antonio amorim de souza, Brasília-DF disse:
    Deixado em 20/08/2010 às 19h43

    cumpadre Ferrer. Vejo com alegria a sua crônica à velhice. Que saudades do tempo em que estudamos juntos no Rio de Janeiro, eu, você, cumpadre Lulu e o Bena. Gostei de reve-lo em prosas. Um abraçao do Cumpadre Toim de Aderson.

  • Maryllia Reis Lopes, Teresina-PI disse:
    Deixado em 19/08/2010 às 10h12

    Caro Ferrer, Parabéns por esse belo artigo. Tenho 24 anos e espero em Deus, ter uma velhice saudável, alegre e feliz! Gostei muito quando o senhor citou essa frase: "Finalmente, não custa repetir aos jovens de hoje o óbvio: eles serão os idosos de amanhã"... Eu tenho essa conciência! Um grande abraço.

  • Cassí Neiva., Oeiras-PI disse:
    Deixado em 16/08/2010 às 21h12

    Prezado Ferrer,
    Parabéns pelo contundente e emergente artigo sobre a velhice.
    Nós brasileiros precisamos lutar pela operacionalização de políticas públicas em prol de uma velhice sadia e tranquila.
    A sua alma de poeta e artista da palavra, revela neste artigo as agruras por quais passam os idosos brasileiros.
    Continue escrevendo, conscientizando a humanidade e revelando que envelhecer é presente de Deus. É GRAÇA DIVINA.
    Saiba que você é dez.

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