Você está navegando por: Notícias Artigos
Assine o nosso Feed de Artigos

O poeta do Bixiga ou sambista dos excluídos

Publicada em 08 de Agosto de 2010 às 22h41 Versão para impressão


* Por Ferrer Freitas



Fez 100 anos no dia 6 de agosto do nascimento na cidade de Valinhos, São Paulo, de João Rubinato, que outro não é senão o compositor, cantor, ator e boêmio Adoniran Barbosa. Filho de imigrantes italianos, vagou com a família por várias cidades do interior, mudando-se para a capital onde inicia a carreira artística, vindo a tornar-se conhecido como autor de sambas memoráveis, sobretudo pelas letras que traduzem o dia-a-dia do paulistano comum. De tal modo conseguiu interpretar o sentimento do operário da construção, do homem da rua, sem eira nem beira, que é considerado o grande nome do samba de São Paulo , capital, em que pese Vinícius de Moraes ter dito certa vez, naturalmente em tom de gozação, que a cidade era o túmulo do samba. Vivia (ou viveu) por muitos anos no bairro italiano do Bixiga, onde era sempre visto desfilando de terno e gravata borboleta, além de pequeno chapéu posto meio de banda. Faleceu aos 72 anos.

A primeira música que ouvi de sua autoria, ainda em Oeiras, meados dos anos cinqüenta, foi “Iracema”, através do alto-falante da prefeitura municipal, serviço sob a locução de Antônio Campos Ferreira, mais conhecido por Antônio Dentim, ou só Dentim. Trata-se de história contada (ou cantada) por alguém que perde a namorada, atropelada por atravessar na contramão a avenida São João. Nesse seu primeiro grande sucesso Adoniran já consegue juntar seu talento ao do grupo “Demônios da Garoa”, ocorrendo aí o casamento perfeito, autor e intérpretes, que se confirma depois com outros sambas antológicos como “Saudosa Maloca”, “Samba do Arnesto”, “Trem das Onze” , para citar os mais conhecidos. Parecia que suas músicas eram feitas para eles cantarem. Muitas, no entanto, foram ainda interpretadas por grandes nomes, a exemplo de “Tiro ao Álvaro” , gravado pela extraordinária Ellis Regina.

Mas, nem só do samba para os deserdados da sorte se ocupou Adoniran. É também seu o nostálgico “Bom Dia Tristeza”, parece que adrede preparado para Maysa cantar, composto com ninguém mais, ninguém menos, que Vinícius de Moraes: “Bom dia tristeza./Que tarde tristeza./Você veio hoje me ver./Já estava ficando até meio triste/de estar tanto tempo longe de você...” Nos últimos anos surgiram músicas com outros parceiros talentosos, como Tom Zé e Carlinhos Vergueiro. Com este último fez, e pra mim é um dos melhores sambas de quantos compôs, “Torresmo a Milaneza”. A letra é um papo na hora do rango entre dois operários da construção: “O enxadão da obra bateu onze horas,/vamos embora, João, vamos embora, João. (...) O que é que você trouxe na marmita, Dito,/ trouxe ovo frito, trouxe ovo frito./E você, Beleza, o que é que você trouxe:/arroz com feijão e um torresmo a milaneza, da minha Teresa!...” Adoniran vem sendo alvo de justas homenagens nos últimos dias, por conta do centenário de seu nascimento. Talvez seja o compositor que mais cantou São Paulo, capital, juntamente com Paulo Vanzolini, zoólogo de profissão e autor de “Ronda”, do verso famoso: “...e nesse dia então,/vai dar na primeira edição,/cena de sangue num bar da avenida São João”.



* Ferrer Freitas é do Instituto Histórico de Oeiras



» Siga-nos no Twitter
» Siga no Orkut


Veja mais notícias sobre Artigos.


Fonte: Da Redação  |  Edição: Lameck Valentim

Comente através do Facebook

Veja também

Comentários (5)

  • Ferrer Freitas, Teresina-PI disse:
    Deixado em 15/08/2010 às 19h38

    "...só se conformemos/, quando o Joca falou,/Deus dá o filho/,conforme o cobertor..." É isso aí, Joca. Obrigado pelas palavras elogiosas. Grande abraço.

  • Joca Oeiras, Oeiras-PI disse:
    Deixado em 15/08/2010 às 09h43

    Adoro Adoniran Barbosa, cresci ouvindo "saudosa Maloca" (onde até tem uum Joca), frequentei o bairro o Bixiga ou Bexiga (acho que tanto faz) nas imediações de onde minha mãe nasceu (na Rua Galvão Bueno, no bairro fronteiriço da Liberdade) mas não nutro a menor pretensão de avalisar nem, muito menos, contestar as palavras do desse cronista da melhor cepa que responde pelo nome de Ferrer Freitas, um dos orgulhos da invicta Oeiras. Ele sabe o que diz porque é um pesquisador e não apenas um diletante. Parabéns, Ferrer, e obrigado por tão bem apresentar aos piauienses o grande paulistado que foi o nosso Adoniram. Aliás concordo plenamente com a comparação que vc fez do Adoniram com o autor de Ronda. Embora não famoso quanto o verso por você citado, existe um outro verso do Vanzolini que eu adoro e que diz assim "Pois se sem você não sou nada, sem meu orgulho eu não sou eu".

  • Amélia, Teresina-PI disse:
    Deixado em 11/08/2010 às 11h27

    Como o Joca é paulistano do Bixiga, seria bom ele dizer se tudo que esta na crônica corresponde a verdade. Sei não, mas o nome do bairro não é Bexiga?

  • Ferrer Freitas, Teresina-PI disse:
    Deixado em 09/08/2010 às 15h47

    É verdade, Divino! Essa namorada de que você fala é Teresinha, depois sua esposa, que foi foi criada pelos meus avós paternos, Burane e Afonsina. Era filha de uma irmã da vovó, conhecida por Iaiá. Lembro dele, Dentim, falando nisso, marcar (ou desmarcar) os encontros com ela por determinadas músicas postas pra rodar na programação do serviço de alto-falante, cujo primeiro estúdio funcionou em sala da Associação Comercial, no canto superior que dá para o Passeio Leônidas Mello. Depois, mudou-se para dependência da casa de seu Pedro Velho, cujo oitão era geminado ao da casa das minhas tias-avós, Naninha e Mimbom, onde eu morava com minha família, pais e irmãos. Havia um certo controle no namoro pelo fato de Dentim ser um grande boêmio. Lembro que ele fazia os programas, uns três ou quatro por dia, com uma meiota de "branquinha" sempre ao alcance da mão, bem assim um comprimido de melhoral quebrado em pedacinhos pra colocar em "panelões" (cáries) de dentes, com o fim de anestesiar um pouco as dores. O espaço pra valer do serviço era isolado por divisória e tinha uma portinhola, além de cobertura superior com um pano esticado. Como ele gostava muito de revista em quadrinhos, eu estava sempre fornecendo, o que me dava o direito de assistir aos programas de dentro do estúdio. Dentim era uma figura engraçada que estava sempre de bom humor. Havia ainda aquela coisa de oferecer música a alguém sem mencionar os nomes de quem oferecia, nem a quem era dedicada Era mais ou menos assim: "a seguir, vamos ouvir o bolero 'Besame Mucho' que alguém oferece a alguém!" Obrigado, cara por você gostar dos meus textos. Isso me dá uma alegria danada. Grande abraço.

  • Baltazar Dias Monteiro, Teresina-PI disse:
    Deixado em 09/08/2010 às 10h29

    Ferrrer ei Ferrer, não vou mais parabeniza-lo aqui no sitio, deixemos para quando nos encontrar-mos aí pelas curvas da vida, voce referiu-se a Antonio Dentim que na vida boemia namorava uma moça sem o consentimento da família da dita (que vivia sob forte vigilância) o velho Dente, simplesmente acordou com ela que os encontros dos dois seriam combinados através da ondas sonoras do alto-falante da PM de Oeiras seja por mensagens cifradas ou através de alguma musica, o final todos sabemos, pelo tamanho da prole que ele construiu com D. Teresinha Campos. Abraços DC.

Comentário

Comente


Publicidade Caso New
Publicidade Honda Direito
Publicidade Glamour
Publicidade Fio de Prata - Oeiras
Publicidade Spazzo
Publicidade Passe a Limpo - Gráfica rápida
Publicidade Casa do Frango
Publicidade Café Oeiras
Publicidade Color system
Publicidade Supermercado Alternativo