Os 100 dias do Governo Dilma Rousseff

Publicada em 11 de Abril de 2011 às 00h05 Versão para impressão

Atualizada em 11/04/2011 às 00h11


Os 100 primeiros dias da presidenta Dilma Rousseff no governo já foram suficientes para marcar algumas diferenças de estilo entre a primeira mulher a chegar ao Palácio do Planalto e seu antecessor e padrinho político Luiz Inácio Lula da Silva. A eleição da petista para o posto máximo da República já previa mudanças na rotina do Planalto, com contratação imediata de seguranças e ajudantes de ordem mulheres. Mas foi na agenda e no modus operandi que Dilma surpreendeu até os ministros que ajudava a comandar quando era chefe da Casa Civil de Lula.

Na agenda, compromissos cor-de-rosa e com foco em questões sociais predominaram no dia-a-dia de Dilma nos últimos três meses. Workaholic assumida, ela não trabalha menos de 12 horas por dia. Em seu primeiro mês no cargo, a petista optou pela discrição e não saiu do Planalto nem para almoçar.

Na primeira segunda-feira útil de janeiro, após reuniões com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e da Câmara, Marco Maia, Dilma parou para almoçar. A presidenta, no entanto, não quis perder tempo com deslocamentos e comeu no próprio gabinete. Cobrado pela mulher, Marisa Letícia, o ex-presidente Lula costumava parar o expediente para fazer a refeição no Palácio do Alvorada, residência oficial.

Dilma chega, inclusive, a estender seu hábito para ministros e já chegou a interromper os almoços de seus auxiliares ao convocá-los para reuniões sem prévio agendamento. Para completar, ela exige pontualidade. E, em reuniões com a ''chefa'', celulares só desligados.

O mês de janeiro foi marcado por despachos internos e nada de contato com a imprensa. No dia 13 de janeiro, no entanto, a presidenta tomou rapidamente a decisão de sobrevoar a região serrana do Rio, abalada pela tragédia das chuvas. Ela fez um breve pronunciamento, anunciou medidas e voltou para Brasília.

Dilma sempre foi considerada durona e seu estilo classificado como muito exigente e centralizador. Mas, para ministros veteranos, como Paulo Bernardo, Dilma agora "terceiriza a bronca" e tem a vantagem de já ter visto um governo funcionar por dentro.

“As pessoas são diferentes, os estilos também. A Dilma era muito durona na chefia da Casa Civil e também em Minas e Energia. Eu não tenho observado isso hoje. Mas a impressão que eu tenho é que ela tinha essa função de fazer cobrança. A Dilma presidenta tem uma pressão diferente e tem gente para cobrar por ela. Quando a Dilma foi para a Casa Civil, Lula terceirizou a bronca e não dava bronca em ninguém. Deixava ela dar a bronca. Imagino que ela vá colocar alguém também, para isso que tem assessores, ministro da Casa Civil e secretário da Presidência”, declarou Paulo Bernardo ao iG durante uma entrevista em janeiro.

De mulher para mulheres

Desde que assumiu, Dilma segue o script e slogan de sua campanha e exalta e destaca o papel da mulher na sociedade brasileira. Em janeiro, a melhor jogadora de futebol do mundo pela Fifa (Federação Internacional de Futebol), Marta, se reuniu com Dilma em Brasília. Após o encontro, a jogadora afirmou que ouviu que o futebol feminino receberá mais atenção do governo.

Na primeira viagem oficial ao exterior, Dilma incluiu no roteiro um encontro com as Mães da Praça de Maio, símbolos da luta contra ditadura argentina. Em seguida, seguiu o script da campanha e exaltou as mulheres no poder durante discurso ao lado de Cristina Kirchner, presidenta do país vizinho.

Assim que assumiu, ainda na composição de sua equipe, Dilma já havia sinalizado que valorizaria a questão feminina ao convidar nove mulheres para o seu ministério, três vezes mais que o número contabilizado no governo Lula. Nesta viagem à Argentina, Dilma repetiu hábito de quando era candidata - fez uma viagem bate e volta. Na base aérea, conversou rapidamente com a imprensa e seguiu caminho ao lado de sua comitiva.

Mesmo sem conceder entrevistas coletivas à imprensa, Dilma fez duas aparições em rede nacional e falou abertamente sobre o câncer contra o qual lutou em 2009 . No Palácio do Planalto, gravou, em fevereiro, participação no programa de Hebe Camargo, na RedeTV!. Também esteve no programa da apresentadora Ana Maria Braga, da TV Globo. Na cozinha, preparou um omelete junto com a apresentadora. Dilma está em dieta para tentar perder o peso que ganhou na corrida presidencial e pediu que Ana Maria economizasse no azeite. "Só um pouquinho", disse, alegando já ter perdido 6 kg. "Agora estou naquela plataforma. Mas ainda vou perder o resto."

Também em março, Dilma recebeu no Palácio do Planalto a cantora colombiana Shakira. No dia 24, com Hebe e Marcela Temer, fez mais uma aparição temática e lançou, em Manaus, programa de saúde contra o câncer de colo do útero e mama.

Emoção

Ao longo dos últimos meses, Dilma foi às lágrimas em mais de uma ocasião. Embora tenha dito a jornais argentinos que o pior momento do início de sua gestão foi a tragédia provocada pelas chuvas na região serrana do rio, a presidenta chorou somente perto de chegar aos 100 dias no cargo: primeiro, diante da notícia da morte do ex-vice José Alencar. E, ontem, na escola que serviu de palco para o massacre ocorrido na zona oeste do Rio, onde um homem abriu fogo contra crianças e jovens.

Descontraída com os resultados das últimas pesquisas de opinião, Dilma surpreendeu na noite de sábado ao aparecer no meio da plateia de um espetáculo de teatro em Brasília. De forma discreta, com poucos seguranças e sem o carro oficial da presidência, Dilma esteve no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) para assistir ao monólogo "A Lua Vem da Ásia".

O antecessor alternava os finais de semana entre Brasília e São Bernardo do Campo, seu berço político, onde voltou a morar depois de deixar o cargo. No entanto, na Presidência, era raramente visto em locais públicos como cinema e teatros, mesmo na companhia da então primeira-dama Marisa Letícia. Assim que deixou o cargo, no final de janeiro, o ex-presidente voltou à vida de cidadão comum e acompanhou uma partida entre Corinthians e São Bernardo do Campo, pelo Campeonato Paulista.

No máximo, Lula ia a lançamentos de livro, como em junho de 2010, em São Paulo, quando prestigiou Aloizio Mercadante com sua obra "Brasil: A Construção Retomada”.


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Fonte: ig  |  Edição: Jadson Osório

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Comentários (1)

  • JOSEVITA TAPETY, Maceió-AL disse:
    Deixado em 11/04/2011 às 22h53

    OS 100 DIAS DE DILMA ROUSSEFF. VISÂO VERDE____O Greenpeace fez uma avaliação de como as questões ambientais foram tratadas no período e só uma conclusão sai:

    cadê o verde que deveria estar aqui?

    Dilma como presidente: onde foi parar o verde?

    Aos novos governantes têm sido concedidos cem dias para construção de uma identidade, uma tradição inspirada na última jornada de Napoleão Bonaparte em 1815 e iniciada no governo do presidente norte-americano Franklin Roosevelt em 1930.


    Na prática, a teoria é outra


    Passados três meses, a presidente Dilma não mostrou ao que veio. Apesar de um artigo seu publicado na "Folha de S.Paulo? indicar preocupação com o tema ambiental, ela ainda não se posicionou na disputa entre ambientalistas e ruralistas pelo Código Florestal, ainda não deu início à construção de um marco legal para impulsionar as energias renováveis no país, não respondeu de maneira firme aos desmandos e à soberba da burocracia nuclear brasileira e ainda não foi capaz de explicar como ficam as emissões brasileiras, como previsto no Plano Nacional de Mudanças Climáticas, com o advento da exploração do pré-sal.

    É certo que a fragmentação partidária não ajuda muito a presidente na missão de transformar o Brasil em um gigante da economia verde. São nada menos que dez partidos de peso político na base governista na Câmara dos Deputados, disputando cada um seu espaço: PT (88), PMDB (79), PP (41), PR (41), PSB (34), PDT (28), PTB (21), PSC (17), PCdoB (15) e PRB (8).

    Muitos deles, como PMDB e PP, estão recheados de ruralistas com interesses contrários aos da agenda verde. Muitos deles trabalham para enfraquecer a proteção ambiental por meio da desfiguração do Código Florestal e do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, e ainda trabalhando pela manutenção (e até crescimento) de fontes poluidoras na matriz energética brasileira. Além, é claro, do forte lobby nuclear que há décadas habita os corredores do Congresso e aprisiona o país em uma perigosa aventura atômica.
    Dormindo com o inimigo

    Durante a campanha eleitoral, a presidente Dilma respondeu a um questionário do movimento ambientalista. Nele, afirmou que vetaria mudanças no Código Florestal que levasse a anistia a desmatadores e diminuísse reserva legal e áreas de proteção permanente (APPs).

    Ela sempre tão ciosa da sua autoridade e do entrosamento das diferentes áreas do seu governo, precisa esclarecer quem apita nessa discussão.

    Atualmente, o líder do governo na Câmara dos Deputados, Candido Vacarezza, e o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, estimulam a votação do projeto do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que pretende enfraquecer a proteção das florestas brasileiras, anistiando quem desmatou ilegalmente e ampliando os limites do que pode ser cortado nas áreas de preservação permanente, situadas nas margens dos rios.

    A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, disse que ?o MMA vem debatendo a questão em cima de três eixos: manutenção das APPs e da reserva legal sem desmatamento; resolução da questão dos passivos ambientais, oferecendo saída para cada uma delas; e as oportunidades que o código venha a oferecer permitindo compensações dentro do mesmo bioma e da mesma bacia hidrográfica, estimulando a silvicultura com, por exemplo, o Pagamento por Serviços Ambientais?. Do outro lado o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, afirmou por diversas vezes que o relatório do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) sobre o novo Código Florestal merece "nota dez": "Não é preciso discutir melhor. Quem discute melhor é o Congresso Nacional?, diz ele.

    A presidente precisa entrar em cena e deixar claro qual é a proposta do governo para o Código Florestal.
    Descaso em relação às renováveis

    Apesar da mensagem com pinceladas verdes ao Congresso na abertura do ano legislativo, o governo ainda não trabalhou para impulsionar a votação do projeto de lei das energias renováveis, parado na Mesa Diretora da Câmara dos Deputados desde 2009.

    O projeto é vital para o florescimento de um mercado para as energias limpas, renováveis e seguras no país, como eólica e solar. Em março de 2010, o Greenpeace, esteve com a presidente Dilma, então chefe da Casa Civil, pedindo o empenho pela aprovação da lei e ouviu que o tema seria tratado pelo governo.

    Enquanto prosseguimos sem um marco legal para renováveis, o governo desperdiça R$ 12 bilhões com a construção de Angra 3, abandona em nossos canaviais um potencial de geração de 28 mil megawatts, o equivalente a duas usinas hidrelétricas de Itaipu, e não consegue construir as linhas de transmissão para os 20 parques eólicos do Rio Grande do Norte, onde serão investidos R$ 8,3 bilhões até 2013.
    Limpando a barra

    A equipe de Dilma previa sua ida à inauguração da usina térmica de Candiota 3 (RS), no início desse ano, mas a presidente mudou de ideia em cima da hora. O projeto faz parte de um acordo internacional firmado entre China e Brasil e está localizado no município de mesmo nome, que ficou 150 dias sem chuva no último verão.

    O investimento em térmicas é totalmente contrário às iniciativas tomadas para reduzir a emissão de gases-estufa, que levam ao aquecimento global. A recusa de Dilma em ir ao evento demonstra que ela pelo menos sabe que ligar sua imagem a uma fonte altamente poluente é negativo. Mas nem por isso repensou o projeto, nem o crescimento da geração térmica na matriz energética brasileira, em detrimento ao investimento em fontes renováveis.
    Abrolhos com petróleo

    Logo no início de seu mandato, Dilma foi informada de que a sentença judicial que impedia a exploração de petróleo e gás no entorno do principal parque nacional marinho brasileiro, Abrolhos, tinha sido derrubada.

    O ato deixou o local de reprodução de baleias jubarte, maior área de recife de coral do Atlântico Sul, vulnerável a acidentes semelhantes ao ocorrido no Golfo do México no ano passado. Já se passaram três meses e nenhuma providência foi tomada para impedir que a região dos Abrolhos se torne uma zona livre de exploração de petróleo.
    Soberba atômica

    Como desdobramento da recente tragédia no Japão, governos do mundo inteiro, a exemplo da Alemanha, anunciaram a suspensão da construção de novas usinas nucleares e a desativação das antigas, tranquilizando seus cidadãos.

    No Brasil, entretanto, o desastre foi classificado de mero ?incidente? pelo ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, que também afirmou que as usinas de Angra 1 e 2 são seguras e não representam riscos para o país.

    Isso não é verdade. Angra 2 funciona sem licença ambiental permanente, um laboratório com material radioativo foi soterrado por um deslizamento de terra onde as usinas estão instaladas e o plano de evacuação em caso de acidente é pífio, pois sequer existem rotas seguras para garantir a retirada da população que mora em Angra dos Reis (RJ). Se um acidente nuclear, como o que ocorreu no Japão, acontecesse no Brasil, a evacuação deveria englobar até 1,5 milhão de pessoas, em 27 municípios do Rio de Janeiro e São Paulo.

    Como não consegue comprovar que tem um plano de segurança para suas atividades nucleares, o governo recebeu recentemente do Ministério da Economia da Alemanha o aviso da suspensão do financiamento de ? 1,3 bilhão para a construção de Angra 3.
    Reação ruim às catástrofes

    Seguindo a infame tradição brasileira de correr atrás do prejuízo, após a tragédia no Rio de Janeiro no início deste ano, o governo anunciou o estabelecimento de um sistema nacional de prevenção e alerta de desastres naturais, que deve ser concluído em quatro anos ? ou seja, há o risco de não ser um marco deste governo.

    Parece inacreditável, mas ainda carecemos no país de um levantamento das áreas de risco. Números iniciais ? e aparentemente subestimados ? apontam aproximadamente 500 áreas de risco, com cerca de 5 milhões de pessoas.

    Além disso, qualquer ação para minimizar os danos de eventos extremos, que tendem a se intensificar com o aquecimento global, só será bem sucedida se houver uma ampla reformulação da Defesa Civil brasileira. Hoje ela é completamente sucateada, desaparelhada e despreparada, e o desembolso de recursos para municípios atingidos por catástrofes é freado por burocracias intermináveis. A ex-secretaria nacional de Defesa Civil, Ivone Valente, reconheceu publicamente que os auxílios destinados a comunidades afetadas por catástrofes acabam não se convertendo em melhorias ou prevenção a novos eventos.

    O Fundo Nacional de Mudanças Climáticas destinou R$ 10 milhões para o desenvolvimento do sistema nacional de alerta. O fundo, entretanto, nem começou a sair do papel.
    Dito e meio feito

    Na sua mensagem ao Congresso Nacional, a presidente se comprometeu a implementar a Política Nacional de Mudanças Climáticas. Foi aprovada a proposta de aplicação de recursos para 2011: R$ 200 milhões em financiamento e R$ 29 milhões em doação de recursos.

    Ao mesmo tempo, descobriu-se que o Programa de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), que poderia dar um grande incentivo ao controle das emissões de gases-estufa produzidos por atividades agrícolas, até hoje não gastou um só centavo dos R$ 2 bilhões destinados. Lançado em junho de 2010, ele visa a recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, entre outras atividades, o que ajudaria o país a cumprir seu compromisso internacional de redução em 36,8% a 38,9% de suas emissões até 2020.
    Corte no orçamento

    Dilma ordenou um corte de R$ 50 bilhões no orçamento de 2011. O Ministério do Meio Ambiente, que já tem o menor orçamento entre todos os ministérios, recebeu uma tesourada de 40%: foi de R$ 1.078.490 para R$ 680.335, um dos cinco enxugamentos mais drásticos entre seus pares.

    Esse corte vai dificultar as operações de combate ao desmatamento e medidas positivas como o programa Mais Ambiente. Isso também vai dificultar o cumprimento das metas brasileiras de redução de emissões de CO² - metas essas que foram reafirmadas por Dilma na sua mensagem ao Congresso na abertura dos trabalhos legislativos em 1º de fevereiro.
    Licenças 'fantasmas'

    Para tentar adiantar a obra da usina de Belo Monte, foi emitida uma licença de instalação de canteiro de obra para o consórcio vencedor do leilão. Esse tipo de licença não existe no Sistema de Licenciamento Federal.


    Expedientes estranhos como esse provocaram um grande constrangimento internacional ao Brasil, com o pedido da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA), pela suspensão imediata da obra.

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