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Os restos mortais do Fome Zero se espalham pela cidade onde nasceu

Publicada em 16 de Agosto de 2010 às 00h50 Versão para impressão


Concebido pelo presidente Lula, o Programa Fome Zero nasceu em 3 de fevereiro de 2003 num palanque armado na única praça de Guaribas, interior do Piauí. Morreu dois anos depois sem ter saído do berço, mas nunca teve sepultamento cristão. Ninguém providenciou o velório, o atestado de óbito não foi expedido. Só existe a certidão de batismo, assinada pelo governador Wellington Dias e por quatro ministros que, na festa eleitoreira promovida há sete anos e meio, enxergaram no recém-nascido a cara do Brasil-Maravilha inventado pelo maior governante de todos os tempos.

Depois da discurseira do governador, depois do falatório dos ministros Ciro Gomes (Integração Nacional), Benedita da Silva (Assistência e Promoção Social), José Graziano (Segurança Alimentar) e Olívio Dutra (Cidades), os quase 5 mil habitantes souberam como seria, no máximo até dezembro de 2006, a vida de quem tivera a sorte de vir ao mundo no lugarejo promovido por Lula a Capital do Fome Zero. Um vidaço de Primeiro Mundo.

Em um ano, todos teriam direito a três refeições por dia. Em dois, a cidade seria premiada com médicos, um hospital, postos de saúde, uma farmácia, escolas, esgoto, água, luz, telefone, calçamento, um hotel, uma estrada asfaltada de 53 quilômetros, um programa de fortalecimento da agricultura familiar, outro de capacitação profissional. Quem não ganhasse dinheiro no campo prosperaria na cidade como artesão ou costureira. Uma empresa do governo, Emgerpi, seria criada na semana seguinte para cuidar exclusivamente do mundaréu de canteiros de obras. E para administrar com especial carinho o Memorial do Fome Zero, colosso arquitetônico destinado a eternizar a lembrança do dia em que tudo mudou.



As coisas se arrastaram até 2005, quando o governo Lula descobriu que o Bolsa-Família era bem mais simples e rendia muito mais votos, matou o Fome Zero de inanição e tentou sumir com o corpo. Não conseguiu, comprovou há um mês a jornalista Sandra Martins, da Tribuna do Piauí. A reportagem publicada em julho expôs o cadáver em decomposição da fantasia oportunista. Espalhados pela cidade iludida, os restos mortais do Fome Zero fazem de Guaribas uma prova contundente de que a visão do Brasil real é obscurecida por um país do faz-de-conta que só existe na propaganda oficial.

Lula repete no comício de todos os dias que os miseráveis não existem mais. Dilma Rousseff recita desde o começo da campanha que os pobres foram transferidos para a classe média. Se no país do presidente e da candidata as guaribas sumiram, no Brasil verdadeiro continuam assoladas pelas carências de sempre. E flageladas pela mesma fome crônica que segue assombrando a capital do Fome Zero.

Passados sete anos e meio, há em Guaribas, além da multidão faminta, um posto de saúde, um médico, nenhum hospital, três enfermeiros, nenhuma farmácia, três escolas, cinco telefones públicos, uma lanchonete, uma mercearia, uma agência do Bradesco. As calçadas são contadas em metros, as ruas continuam sem pavimentação, só existe água em poucas casas, falta energia elétrica, um vasto arquipélago de fossas negras denuncia a inexistência de rede de esgoto no aglomerado de 942 residências, incluídos os casebres miseráveis que o governador e os ministros prometeram erradicar.

O programa de capacitação profissional parou nas máquinas de costura que enferrujam perto da praça. A agricultura familiar nunca desceu do palanque: neste ano, a safra se resumiu a um punhado de sacos de milho. A estrada não foi pavimentada. A construção do memorial ficou no esqueleto. Esquecido pelo PAC, que entre o que não vai construir incluiu até um trem-bala, o monumento virou ruína sem ter sido inaugurado.

Como as 805 bolsas-família são insuficientes, a fome aumentou e a população diminuiu. “As pessoas estão indo embora em busca de trabalho”, lamenta o secretário de Administração da prefeitura, Edmilson Pereira Maia, que atribui o fiasco do Fome Zero ao descaso do governo federal. “Eles montaram aqui uma administração paralela e depois abandonaram tudo”, informa. O escritório ocupado pela Emgerpi está com as portas lacradas há mais de ano. Manoel Gomes, dono do imóvel, avisa que só vai devolver a mobília e os objetos que reteve quando receber o aluguel atrasado.

Lula prometeu visitar Guaribas duas vezes. Nunca deu as caras por lá, mas viu as caras dos crédulos quando mandou importar alguns nativos para uma audiência em Brasília. Carmelita Rocha, hoje com 70 anos, foi embarcada com a comitiva. Jamais soube exatamente o que foi fazer na capital, mas garante que viveu os melhores momentos da vida. Viajou de avião, comeu bem, dormiu num quarto de hotel, passeou em carros de luxo. Foi a primeira vez que viu como é a vida longe da miséria. E a última.



Viúva há três meses, sustenta a própria família e a da irmã, que também enviuvou recentemente, com os R$ 400 da aposentadoria que herdou do marido, enterrado na cova rasa com o corpo envolvo numa rede. “Compro um saco de arroz, café, açúcar, massa de milho, sabão e só”, diz Carmelita. “Não estamos passando fome rachada, mas são vários dias que não temos o que comer”. Ela recorda nitidamente do comício que lhe prometeu três refeições por dia. Se conseguisse uma, Carmelita ficaria muito feliz.


Coluna do Augusto Nunes - Abril.com.br
Fotos: André Pessoa


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Palavras-chaves: Fome Zero - Lula
Fonte: Abril.com.br  |  Edição: Lameck Valentim

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Comentários (6)

  • antonio jose, Colônia do Piauí-PI disse:
    Deixado em 26/08/2010 às 23h11

    adorei esta reportagem devia se divulgada na midia nacional para mostra para estas pessoas que estão sendo enganadas por estes politicos currptos como sr lula e seus aloprados que só sabe robar a conciencia das pessoas mal informado ainda admiro aqui no piaui esta condidata tem 58% dos votos realmente os em leitor nosdestino não sabe votar faço uma pergunta a vc eleitor vc daria sua casa ou comercio para uma pessoa sem esperiencia para admistra. seus bem pois pense bem ante de votar. nesta candita arrumada por lula

  • EDSON CD´S, Colônia do Piauí-PI disse:
    Deixado em 22/08/2010 às 23h40

    É realmente eu também concordo com o colunista pois a realidade é que os políticos só lembram das pessoas na época em que precisam do seu voto onde é nesta época em que eles começam a prometer o não devem pois acham que nós os eleitores acreditam, e o poir é que muitos de nós acreditamos e continuamos aser-mos enganados e até mesmo masacrados por pessoas que não tão nem ai........ só pensam em si próprio quando são eleitos com o nosso voto.

  • Edson, Teresina-PI disse:
    Deixado em 18/08/2010 às 10h12

    Meu caro Lindomar não importa de onde esse colunista seja, oque importa é que o mesmo esta mostrando a realidade, a falta de compromisso, as demagogias que foram implantada em uma comunidade carente de tudo, pessoas que foram engandas por um grupo de pessoas sem principios éticos, que não respeitam e nem cumprem oque esta na constituição. SERÁ SE ESTAS PESSOAS TEM SERVIÇO DE SAÚDE PUBLICA, EDUCAÇÃO, LAZER, SISTEMA DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA, REDE DE ESGOTO? Por isso meu caro veja a realidade daquele povo.

  • lindomar, Mauá-SP disse:
    Deixado em 17/08/2010 às 09h41

    com certesa esse colunista è do sul ou sudeste para fazer criticas ao progama fome zero.porque os moradores desta duas regiâo que faz parte da ELITE E DA BURGUESIA são contra a distribuiçâo da reda do pais.ele não fala da valorização do salario minimo.o salario minimo já é igual a piso salarial de certas categoria profisional.O FOME ZERO NÂO É SÓ FOME DE ARROZ É FEIJÂO. É FOME DE EDUCAÇÂO DE QUALIDADE PARA TODOS, SAÚDE PARA TODOS SEGURANÇA PARA TODOS.É NÓS NORTESTINO SOMOS DISCRIMINADO AQUI NO SUL É SUDESTE.

  • Pedro Antonio, Ceilândia-DF disse:
    Deixado em 16/08/2010 às 12h57

    Essa é a pura realidade, e o pior é que as esperanças não se renovam, pelo jeito, vai continuar assim.

    É uma matéria para reflexão, parabens ao autor.

  • Otto Amaury, Brasília-DF disse:
    Deixado em 16/08/2010 às 08h33

    Essa, sem dúvida, é a melhor matéria que já li neste site. Sem partidarismo, nem paixões messiânicas, é um raio x da politicagem que assola o Brasil e, mormente, o nosso tão castigado e vilipendiado estado do Piauí.
    É pena que nem todos lerão e que, dos poucos que terão esse privilégio, apenas um punhado o fará com isonomia.
    Parabéns, Augusto nunes!

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