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Crônica de Rodrigo Queiroz

19 de Abril de 2017 às 10h12 Imprimir

Atualizada em 21/04/2017 às 08h26

 *Por Rodrigo Queiroz


Decidi voltar pra Teresina pela madrugada. Assim poderia descansar na viagem de ônibus, não tão confortável, pela linha que faz o percurso todos os dias, mas seria bom chegar a tempo para uma consulta às 09:30h da manhã. Pelo menos é o que eu ia tentar fazer ao deixar Oeiras, a cidade em que nasci.

Para fazer valer a pena a escolha do horário fiquei até tarde estudando coisas sobre biografia. Um texto didático e provocativo do professor Benito Bisso Schmidt me deixou de olhos arregalados até próximo do horário de sair da casa da minha avó, que fica no centro da cidade. Escolhi ir a pé até a rodoviária. Há muito tempo faço isso sempre que escolho ir pela madrugada de volta à Capital.

Como é bom poder caminhar pela "cidadezinha tão pequenina" que sonhada através dos versos da poesia de Rogério Newton, poderia caber na palma da mão. Comecei arruando pela Rua Getúlio Vargas, o ponto de partida. De lá entrei pelo largo da Praça Rocha Neto, logradouro mais escuro, com pouca iluminação.

Quase saindo, dou-me de cara com o "Alto do Xé". Hoje só sei que acomoda um escritório de advocacia e, na esquina, a inesquecível Papelaria do Estudante. Morria de vergonha quando criança que, ao ser mandado comprar folha de papel almaço, era indagado por seu Dito Barbosa: - É pra casa de Possidônio? Então não aceite o pagamento minha filha (dizia o dono à moça que manuseava o dinheiro).

Outras lembranças, porém vagas, sobrevoam a partir da sua arquitetura Art Déco (se estiver errado desculpem-me a escrita e a escolha do estilo pelo desentendido aqui). Na infância mais longe que a da compra do papel, lembro que lá funcionava um bar. Cheguei a entrar. Marcou-me sua estrutura em "U".

Como fica numa esquina, esse prédio também faz parte do próximo cenário da minha caminhada: o Largo do Mercado Público. Que coisa mais linda ver todo aquele espaço onde outrora (década de 1980) brincava com meu irmão mais velho e outras crianças que apareciam por lá. Disputávamos quem segurava por mais tempo um poste que dava choques de "leves". Na realidade não sei bem definir o que seriam esses choques "leves".

A madrugada deixa tudo mais limpo quando o que se quer é ver a cidade como ela é, como foi construída e desejada pelos citadinos de diferentes gerações. No outro lado do mercado, com frente ao poente, as casas que pertenceram à família desde o tataravô. Sei que algumas eram da primeira década do século passado.

Ao abandonar o largo Rocha Neto e, adentrar o largo do mercado, cumprimentei, com um boa noite, um senhor que parecia ser o vigilante. Peguei o smartphone, simples, já meio antigo, pois tecnologia de celular torna-se obsoleta a cada ano (imagina um de 2013), mas que ainda consegue obter foto. Subtrai o tempo para uma pequena pausa da caminhada e fui registrar algumas poses do Mercado. Ao fundo, avistei a antiga casa da bondosa D. Ana Barroso, já de aspecto moderno e, por fim, o Largo da Conceição, onde fica a igreja oitocentista, mas que ainda era terminada no novecentos, que leva o mesmo nome.

Dai em diante uma dúvida me ocorreu: sigo pelo beco do cemitério ou subo a Av. Duque de Caxias? Escolhi a última. Alguns leitores vão pensar que foi por medo de passar em frente à casa dos despojos dos mortos antigos da cidade, mas pensei em ver como a avenida estava mudando, pois novas construções já podiam ser vistas de longe. Assim fiz.

Segui subindo, refletindo sobre as transformações da cidade. Uma cidade mais antiga dá lugar a prédios modernos. Vou caminhando no sentido que entende-se por subir, indo do poente ao nascente, até que num susto percebo um carro aproximando-se e gradativamente verifico ser uma pick-up. De súbito dela sai um grito para que eu parasse e colocasse as mãos sobre a cabeça. Eram policiais. Fazem a ronda pela cidade procurando algo suspeito e protegendo a sociedade. Afinal é esse o seu papel.

Naturalmente fui tomado por um susto quando me dei conta de que estavam procurando algo bastante sério, enquanto desciam todos armados com algo que considero, no meu quase completo desinteresse, por metralhadoras ou fuzis. Pediram (com ordem de policial) que colocasse minha bolsa a tiracolo sobre a calçada e retirasse a mochila das costas. Fiquei realmente preocupado, não estavam ali para um simples "baculejo".

Abriram a mochila, perguntando pra onde ia e de onde vinha. Após minha resposta, o que poderiam esperar de mim era o silêncio pelo estado atônito de surpresa, susto, medo e confusão mental. Enquanto vasculhavam tudo o que tinha, continuaram a perguntar enquanto outros dois, com suas armas, davam cobertura, preparados contra qualquer atitude do perigoso suspeito.

Pediram documento. Ao entregar perguntaram o que fazia na cidade. Respondi-lhe que era professor. De imediato uma série de perguntas foram sendo feitas a fim de que eu desse todas as descrições possíveis, pois (pasmem aqueles que me conhecem), sou suspeito. Perguntas como: onde fica a casa da sua avó, qual seu endereço em Teresina, professor de quê, qual curso, qual bloco, você é natural de onde, quando você foi contratado, vai ficar morando na cidade?

Fui aos poucos percebendo o motivo da abordagem. Essa era a segunda vez que me faziam passar por esse tipo de procedimento. Na primeira vez era estudante do Curso de Licenciatura Plena em História, pela Universidade Estadual do Piauí, em Teresina. Neste episódio estava usando touca, tinha o cabelo grande, portanto, grande chance de ser algum indivíduo que se desviou dos caminhos da "ordem social". Ao abrir a mochila depararam-se com livros, gravador de voz (na época a tecnologia que possibilitava registro de memória era a fita magnética chamada K-7) e uma antiga flauta transversal de ébano que pertencera ao meu bisavô (meu xodó).

Na abordagem em destaque, que agora apresento ao caro leitor, os policiais encontraram petas (acessório alimentício que considero obrigatório no movimento de retorno à capital), um bolo de chaves, notebook, livros novamente e roupas. Pensei em certo momento que essas últimas eram as grandes culpadas da tão atenciosa abordagem.

Assim como na primeira vez, as indumentárias foram as culpadas, pois estas não seguiam padrões mínimos condizentes com os de estudantes que zelam pela "normalidade". Desta vez eu estava vestido talvez como um professor que sou – pelo menos era o que pensavam. No entanto, aos olhos alheios essa não deva ser a melhor forma de se vestir. Não para professor, ou cidadão de bem. Mas por que escrevo sem pensar esse termo “de bem”? Não sei muito bem! Acho melhor perguntar a Nietszche, "para além do bem e do mal".

Quase findando a abordagem, um dos policiais, o mesmo que aplicou-me o questionário, foi-me tão atencioso que me explicou o motivo de tudo isso. Receberam uma informação de que um rapaz andava com mochila e bolsa pelas ruas de Oeiras com atitude suspeita. Argumentaram finalizando: - Bem, esse é um procedimento tático do grupo. A gente agradece a colaboração.

Colaboração! Recebi ordens! Em algum momento me pediram algo preservando a dignidade que o direito de cidadão me reserva? Não lembro. Recebi ordens. Tomei um baita susto, fui apalpado, tive meus pertences revirados, vasculhados, respondi a interrogatórios, minha RG foi fotografada pelo policial entrevistador. Sabe-se lá, Deus, baseado em quê... Tudo isso, leitor amigo, porque sou um indivíduo suspeito, afeito a tomar ônibus no horário da madrugada, que aproveita para caminhar e admirar quantas vezes for possível a beleza monumental de minha linda e pequenina cidade que cabe apenas nos sonhos daqueles que conseguem sonhar.

*Rodrigo Queiroz é professor da Universidade Estadual do Piauí, Campus Professor Possidônio Queiroz

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Fonte: Da Redação  |  Edição: Redação Oeiras

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