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Releitura da obra de burane

Publicada em 19 de Março de 2009 às 22h42 Versão para impressão


Li, com agrado, texto do cronista Junior Viana, da nova geração de escritores de Oeiras, em que aborda o lado de artista plástico de Benedito Amônico de Freitas, o Burane. Bom para a santa terrinha, bom para todos nós oeirenses, não só os que têm a felicidade de lá viver, mas para os que, como eu, só o façam espiritualmente, que, a cada dia, surja um novo valor, sobretudo nas artes literárias, o que vem confirmar o que certa vez disse O. G. Rêgo sobre Oeiras ser, também, uma terra de poetas.


Após abordar a veia artística de Burane, que foi ainda músico (tocava violoncelo, entre outros instrumentos), o conterrâneo cinge-se ao trabalho mais apreciado dele, qual seja o quadro do “Descimento da Cruz”, que tenho a felicidade de ser detentor, por nímia gentileza de cessão da sobrinha e filha adotiva, Teresinha, viúva de Antônio Campos Ferreira. A análise da obra é feita de forma percuciente , daí o agrado a que me refiro. Para surpresa, não minha, descobriu o Junior que a pintura não é uma criação do artista, como pensava Dagoberto, mas uma releitura da obra de Peter Paul Rubens, intitulada “Descida da Cruz”, comprovando com foto da tela original.


No meu trabalho sobre o artista, publicado em dois números da revista do Instituto Histórico (a reprise por conta do seu centenário), assim me expresso ao falar desse lado ora em exame: “... o artista deu vazão a todo o seu talento, pintando quadros, ora de gravuras retiradas de folhinhas (calendários) e revistas ilustradas (...). O quadro da Cadeia Velha é, sem dúvida, um dos mais apreciados, juntamente com o do ‘Descimento da Cruz’”. Não falo em criação! Agora, após conhecer a tela original, passei a admirar ainda mais o artista oeirense. Meu Deus, que reprodução! E, é preciso dizer, a pintura de Burane é sobre papelão e não em tela apropriada, sem falar na tinta que ele mesmo produzia.


Diz ainda o poeta Junior Viana, desnecessariamente, já que apreciava a faceta de artista plástico de Burane, que o quadro o remetia para o fato dele ser descendente (era neto) do Padre José Dias de Freitas, daí advindo sua afinidade com a Semana Santa, mais precisamente com o descimento da cruz. Sobre isso, devo dizer, como parte interessada, que me inteirei, há muitos anos, por que só homens de sobrenome Freitas participavam daquela cerimônia. A explicação veio de parte do então monsenhor Leopoldo Portela, de quem fui coroinha, aluno e amigo. O Padre Freitas, antes de ser pároco de Oeiras (1872-1906), conheceu, e enamorou-se, de Esperidiana Roza Ferreira, que veio do interior para a cidade e foi residir em casa vizinha à sua. Do relacionamento, logo veio o primeiro filho, de uma prole enorme, o que o levou a pedir ao Vaticano a dispensa das ordens, parece-me que ao Papa PIO X. Nunca obteve resposta de seu circunstanciado pedido, pelo contrário, foi nomeado pároco, mantendo-se respeitadíssimo pelo paroquianos, que, segundo se sabe, sempre apelavam para que permanecesse na função, o que terminou por acontecer até sua morte, já bem velho. Fazia a Semana Santa de Oeiras, como único celebrante, acolitado pelos filhos e netos, o que se tornou uma tradição passada de pai para filho, até os dias atuais. Ajudavam-no não como penitência, mas por obediência.


Mas, os Freitas de Oeiras não são os únicos descendentes de um padre. Há outros, e de igual sobrenome, da cidade de Piripiri, sem falar em José de Alencar, extraordinário romancista, e Clóvis Bevilaqua, autor do Código Civil Brasileiro. Bendita descendência espúria que me trouxe ao mundo!




(*) Ferrer Freitas é do Instituto Histórico de Oeiras


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Fonte: Mural da Vila  |  Edição:

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