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Zoon Politikon

Publicada em 14 de Maio de 2010 às 01h03 Versão para impressão


Foto: Lameck Valentim Cine Teatro Oeiras Cine Teatro Oeiras
* Por Xico Carbó



A expressão acima foi utilizada há mais de 300 anos antes do nascimento de Cristo pelo filósofo grego Aristóteles para descrever a natureza racional do homem em sua interação necessária com a polis. Este conceito aristotélico é, segundo o sociólogo Daniel Rodrigues, um dos mais exaustivamente estudados na filosofia política e um dos argumentos fundamentais para a organização social e política.

No entanto, para Aristóteles, o homem é um Animal Político na medida em que se realiza plenamente no âmbito da cidade. Segundo ele a “cidade” ou a “sociedade política” é o “bem mais elevado”, ou seja: a sociedade precede o indivíduo; em outras palavras: a sociedade é mais importante que o indivíduo(grifo nosso). Por isso os homens se associam em vários níveis de agrupamentos: família, cidade, Estado (“Política” CAP. I Livro Primeiro)

Dentro desses agrupamentos o homem agiria orientado por uma moral, de modo que suas ações e juízos resultaria ora em vício ora em virtude. Seria o meio termo, o ideal/excelência, o qual se conseguiria pelo treinamento e formação do hábito. Meio termo, aqui, não se trata de um cálculo preciso, senão de sensatez diante das circunstâncias apresentadas. “Não agimos certo porque possuímos a virtude ou a excelência e sim, antes, as possuímos porque agimos certo.

Contrapondo-se à idéia aristotélica, temos hoje, o que os teóricos da sociedade de massa chamam, individuo atomizado. Ou seja, “os indivíduos só conseguem se relacionar como átomos em um composto físico ou químico”. A sociedade se fragmenta; carece de relacionamentos significativos; o indivíduo torna-se um número a mais na massa: desarticulado politicamente, manobrável, desprovido de identidade, facilita a subordinação do coletivo à lógica individual, acentuando o processo de fragmentação social; o senso comum da lugar ao individualismo racional. No caso em foco, o Cine-Teatrao-Oeiras poderia ser o grande mediador dessa vulnerabilidade.

Assim sendo, parafraseando Aristóteles, podemos dizer, por exemplo, que entre o cargo e a falta de vontade política(há décadas), existe a responsabilidade social; existe a gestão pública eficaz (não fosse o Monumenta, o Cine teria desabado). Sejamos coerentes: desde quando houve realmente alguma preocupação em tratar a cultura oeirense como política pública?

Não confundir vontade política com vontade de político. Aquela é a “capacidade de resolver as necessidades de uma sociedade”; “não pertence a ninguém; é um sentimento social resultante da integração das vontades de cada um dos integrantes de uma sociedade”; segundo ainda o Instituto Ethos, não existe responsabilidade social sem ética. A outra vontade não vou comentar. “Somos o que repetidamente fazemos”

Sem querer ser dogmático, acreditamos que se continuarmos agindo orientados pelas vontades individuais, Oeiras nunca existirá como polis.

O que tudo acima tem a ver com o Cine Teatro Oeiras? TUDO!
.
Bom, o caso em foco não se trata, pura e simplesmente, de uma questão de politicagem, nem de oportunismo como querem alguns. Requer uma abordagem histórica do problema .
.
Reportando-me diretamente à questão do Cine-Teatro, é claro que, como espaço público que o é, deveria cumprir sua função social: fomentar, facilitar, potencializar e desenvolver a atividade teatral e de cinema na cidade. Não apenas servir como um espaço de representação, mas inserir-se com postura ética no ambiente social, assumindo estratégias empreendedoras(responsabilidade social) para melhor desenvolver o indivíduo e a comunidade . Fácil não é, mas com uma atitude pro-ativa é possível. Urge uma gestão(diretoria) eficaz, consciente e comprometida. Aproveito para reiterar a sugestão de criar a Fundação Cine-Teatro-Oeiras.

Uma das questões que mais contribui para os baixos índices de práticas culturais da população brasileira é a má distribuição dos equipamentos culturais, que estão instalados nas regiões mais centrais e ricas. Uma pesquisa(2005) realizada pelo IBASE e pelo Instituto Pólis, constatou que das cinco maiores preocupações do jovem brasileiro, no que se refere à cultura e ao lazer, três estão ligadas às condições de acesso. Dentre elas destacam-se a falta de espaços de cultura e lazer e à concentração da oferta nas zonas de maior poder aquisitivo(grifo nosso).

Em Oeiras temos o equipamento “inaugurado”, mas fechado.

Elegendo-se a Democracia Cultural, como conceito de ampliação das possibilidades do acesso da população a experiências culturais e artísticas, entendemos que o nosso Cine-Teatro pode e deve criar condições concretas e objetivas de acesso, produção e fruição de produtos culturais, contribuindo para ampliar as oportunidades dessa Democratização.

O Cine-Teatro-Oeiras, foi construído, como não poderia deixar de ser, dentro da “tradição unanimemente venerada”, obedecendo às normas do espetáculo à italiana, que ocupa posição dominante em todo o Sec XIX e, com algumas exceções, até a metade do Sec. XX. Para Roubine, a representação à italiana, com seu aperfeiçoamento técnico permite os efeitos de ilusão mais perfeitos, conforto aos espectadores(aristocracia e burguesia) e satisfaz a grande maioria dos profissionais de teatro, aparece como o supra-sumo da arquitetura teatral. Ora bolas, tal monopólio de representação, “espelho de uma hierarquia social”, nunca iria se interessar pela democratização do teatro. Em Oeiras não seria diferente.

Se pensarmos em querer democratizar o teatro, teremos, antes de mais nada, que democratizar a relação entre platéia e espetáculo, como sugere alguns:

Artaud pensava livrar os espectadores das regras impostas pela civilização. Uma de suas técnicas foi unir palco e platéia; acreditava, assim, liberar as forças inconscientes do público. Peter Brook afirma: “ posso tomar qualquer espaço vazio e chamá-lo um cenário desnudo. Um homem caminha por este espaço vazio enquanto outro lhe observa, isto é tudo que se necessita para realizar um ato teatral”.

Evidente que não cogitamos nenhuma abolição do palco italiano, nenhuma revolução, creio, apenas que, mesmo sendo tão complexas as soluções podemos adequá-las para outros locais. Afinal de contas, ele, palco italiano, como diz Roubine, agora é objeto de amadurecida reflexão e argumentação, não é mais considerado como uma estrutura natural inerente à arte teatral.

A cena contemporânea tai cheia de espetáculos experimentais, criações coletivas, e diversidades estéticas realizadas nos mais variados locais. Portanto, sem neuras, Mãos à obra!

Só lembrando: Dois Perdidos numa Noite Suja ,de Plínio Marcos, foi encenada a primeira vez, em 1966, no bar Ponto de Encontro, em São Paulo.


*Xico carbó é ator (DRT/PB – 543)


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Palavras-chaves: Artigo - Xico Carbó
Fonte: Da Redação  |  Edição: Lameck Valentim

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Comentários (14)

  • Baltazar Dias Monteiro, Teresina-PI disse:
    Deixado em 19/05/2010 às 08h55

    Meu cumpade, falou e disse, não vou inventar tiradas para felicitá-lo, só lembrando, que eu e Rogério já andamos flertando com Plínio, exatamente em "Dois perdidos numa noite suja", agora mais maduros e com disponibilidade de tempo faremos rebrotar a idéia e se sair vamos levá-la "em qualquer canto de qualquer cidade..." .Abraço fraterno DC.

  • xico carbó, Teresina-PI disse:
    Deixado em 18/05/2010 às 21h40

    Caro Tiel, ratifico a "abordagem histórica do problema";
    Rogerrio, mermão, bem sabes da minha aversão ao alardeio.
    xico caarbó










  • rogério newton, João Pessoa-PB disse:
    Deixado em 18/05/2010 às 09h57

    Na citação de Augusto Boal, feita no final do meu comentário, apareceram pontos de interrogação, inexistentes no texto do dramaturgo. Por isso, faço a correção, pedindo desculpas pelo engano: "Cidadão não é aquele que vive em sociedade - é aquele que a transforma!"
    (Retirada do livro A Estética do Oprimido, Editora Garamond/Funarte, Rio de Janeiro, 2009, p. 22)

  • rogério newton, João Pessoa-PB disse:
    Deixado em 17/05/2010 às 12h28

    "Para entendermos uma palavra, seja qual for, temos que conhecer o histórico do emissor", afirmou o dramaturgo brasileiro Augusto Boal, no seu livro póstumo "A Estética do Oprimido" (2009). O histórico de Xico Carbó qualifica-o a dizer o que disse no seu artigo. Desde a década de 1980, o teatro ocupa lugar fundamental em sua vida. Sua ligação visceral com Oeiras levou a eleger o Cine-Teatro como objeto de estudo de sua dissertação de Mestrado na Universidade de Salamanca (1997). A montagem de "O Boi de Nossa Senhora", que ele dirigiu e fez questão de apresentar em Oeiras, sem a limitação ideológica do palco italiano, é um documento estético e político que faz uma releitura do episódio que ficou conhecido como "O Roubo da Custódia". Sua versão do fato histórico não absolve o sistema sócio-econômico-político da época. Por ocasião do lançamento de "Último Round" (2004), na Praça da Vitória, fez a leitura dramática de poemas do livro, junto com crianças do Bairro Várzea. As performances ecopolíticas, no Fórum Ambiental em Oeiras, e "O Riacho Tem Sede", diante de uma platéia calada, próxima ao palco armado nas imediações do Café Oeiras, no Festival de Cultural de 2006. A "Paixão de Cristo", que ele dirige anualmente com alunos da APAE em Teresina. Estes são, entre muitos, exemplos de sua arte. E a proposta de Xico Carbó não é de uma arte alienada, "sorriso-de-sociedade", apolítica, individualista. Não por acaso, o elenco com o qual sempre trabalha são pessoas "invisíveis", isto é, pessoas às quais historicamente se têm negado a subjetividade artística e a qualidade de cidadãos da "polis" contemporânea. Sem exagero, posso dizer que Xico Carbó fez sua opção estético-política pelos que não têm vez nem voz. Ele faz isso por pura consciência artística e humanística, sem se preocupar em dar "visibilidade" ao seu trabalho, sempre feito com esforço e estudo. Pela sua participação em grupos de teatro de Oeiras, Teresina, João Pessoa e Espanha, pelo que já fez e continua fazendo, Xico Carbó merece ser reconhecido como Homem de Teatro. Só isso lhe basta. Ele talvez nem goste do que estou falando, pois é do seu estilo trabalhar sem barulho. Mas digo e repito: Xico Carbó é um artista oeirense, um artista brasileiro. Finalizo com Augusto Boal: ?Cidadão não é aquele que vive em sociedade ? é aquele que a transforma!?.

  • Gutemberg Rocha, Teresina-PI disse:
    Deixado em 17/05/2010 às 10h01

    É isso aí, Xico Carbó! No seu texto você revela o excelente professor, artista irrequieto e cidadão consciente que é, prestando uma grande contribuição para Oeiras, ao revolver e adubar o solo árido e ao mesmo tempo fértil da nossa cultura. Espero que a repercussão continue e estimule os oeirenses de modo geral a refletirem e adotarem atitudes que realmete gerem as transformações que se fazem necessárias. Quanto ao palco italiano, concordo que não é o caso de aboli-lo, pois ele pode perfeitamente conviver com outras alternativas de apresentação teatral. E até acho que é preciso valorizá-lo como espaço democrático irradiador de arte e cultura, tanto popular como erudita. A sugestão de se criar a Fundação Cine-Teatro Oeiras pode ser um caminho.

  • tiel reis, Oeiras-PI disse:
    Deixado em 16/05/2010 às 23h18

    belo ensaio, podemos chamar assim? quanto ao teatro só não ter caido graças ao monumenta, é verdade, mas voce esqueceu de dizer que ele só ficou naquela situação graças ao monumenta, que vendeu a idéia de que em alguns meses o teatro passaria por uma grande reforma. Eu mesmo fui um dos que acreditei. Meses passavam, o teatro deteriorando-se e a prefeitura de mãos atadas porque a reforma "tá vindo", "não podem modificar nada porque a reforma tá vindo, tudo tá no projeto". Foi só mudar o poder e a reforma saiu, COISAS DA POLÍTICA. esqueceu de dizer também que está havendo um grande retrocesso de tudo que foi feito pela cultura nos últimos anos. Voce pode até achar pouco, mas foram conquistas e voce não pode negar. isso.

  • luis claudio ribeiro, Barras-PI disse:
    Deixado em 16/05/2010 às 21h02

    por que voce não se candidata VIVALDO? a omissão, a falta DE coragem são tão vergonhosas como a eleição dos mesmos. Criticar por criticar e não colocar sua cara a tapa para ver realizadas as mudanças é falta de verdadeira vontade de mudar, é querer que tudo permaneça COMO ESTÁ ATÉ A CHEGADA DE UM CONTRACHEQUE doado pelos políticos como uma forma de cala boca.

  • Jose junior sousa, Oeiras-PI disse:
    Deixado em 16/05/2010 às 15h27

    Na data da re-inauguração esse prefeito prometeu novas máquinas que foram adquiridas junto a petrobrás, mas, até a gora não funciona nada nesse cinema. A unica parceria que esta dando certo, e o enriquecimento da família do prefeito através e uns laranjas, é bom o povo ler a denuncia feita pelos vereadores sobre o festival de ultura de 2009. Quanto recibo supra faturado. Será que os cantores receberam aquele verba que está no recibo? E o Ministério Público porque não investiga?

  • Edmo Campos, Teresina-PI disse:
    Deixado em 16/05/2010 às 14h31

    Perfeito, professor Xico! Baita aula!

  • Josevita, Oeiras-PI disse:
    Deixado em 16/05/2010 às 00h42

    MINHA GENTE!!
    apenas constatação do já sabido e esperado: o espetáculo O Pequeno Principe do Sertão é lindo. MARAVILHOSO! EMOCIONANTE! A encenação de nossos queridos atores e jovens atrizes é explêndida.trabalho de altíssimo nível. Texto e adaptação perfeitos. Lameck, e queridos Apresentados! Com muito amor e respeito ao seu empenho e dedicação, recebam mais uma vez meu abraço afetuoso e meus parabéns.
    Sinto uma tristeza enorme ao perceber o quanto outras pessoas estarão perdendo por que lhes foi roubada a possibilidade de compartilhar daquele momento. Dá uma dor enorme no coração saber que nossos gente e principalmente nossos jovens ainda não poderão amanhã mesmo entrar no teatro e usufruir de um momento de tamanha sensibilidade e valor artistico. Parabéns e obrigada a Inezinha por ter propiciado a estréia de nossos artirtas em solo oeirense. Simplesmente excelente trabalho.

  • Josevita, Oeiras-PI disse:
    Deixado em 15/05/2010 às 14h02

    EXATO!! Extremamente bem exposto, meu caro Chico! Super aula. Gostaria de enfatizar algo que venho repetindo desde que vivo essa experiencia de vida oeirense: todo movimento cultural acontece, se estabelece e institui comportamentos e hábitos quando é feito de forma compartilhada. Toda obra de arte só éplena quando compartilhada. Todos os movimentos culturais que aconteceram, históricamente, partiram da inconformação de GRUPOS de individuos que encontram identificação, questionaram posicionamentos, pensaram juntos. Sedentos de criar, viver cultura, arte e diversão, os artistas fundem o fervilhar de idéias em ações ricas. Concretizam-nas e contagiam o todo. Cada conversa de bar, de esquina, de beira de calçada preenche o inconsciente e o coletivo reage. Esse compartilhar, também este aqui surgido no Mural da Vila, é uma grande força. Pensar mais arte e menos política vai ajudar muito. Nada será capaz de deter a reação da cultura popular. A produção cultural nasce fruto desse poder criativo compartilhado. SEMPRE!O lugar onde essa força criativa se expande não tem que ter palco formal, construído para reunir elites estáticas, rígidas ou academicistas, nem paredes ou cortinas. O cenário é a própria vida. Precisamos APENAS de unir os talentos, as forças e FAZER ARTE. O espaço de arte é Oeiras inteira. Os agentes somos todos nós. E somos muitos.

  • Vivaldo Simão, Oeiras-PI disse:
    Deixado em 14/05/2010 às 16h58

    Votar em quem, minha cara Márcia?
    O que pode ser realmente mudado é através da pressão do povo sobre quem está no poder. De que adiantaria esperar até a próxima eleição pra ver outros assumirem e repetirem os velhos erros de sempre. As discussões sobre o Cine já se se estenderam muito mas isso é um tipo de pressão que precisa ser feita, sempre que for necessário.
    Foram essas "referências excessivas" ao cine que levaram a discussão à câmara dos vereadores, foram elas que levaram a questão ao conhecimento da vereadora Lilian Martins, através do jornalísta Willian Tito, que a questionou a respeito do assunto. Muitos debates tem rolado pelo twitter. Muitos emails têm sido trocado. Enfim, é uma parte do papel do povo (obviamente é preciso um pouco mais de organização e objetividade) mas é assim que as coisas tomam impulso.

  • Marcia Carvalho, Teresina-PI disse:
    Deixado em 14/05/2010 às 09h21

    eu admiro o trabalho do Xico com o grupo de teatro, acho muito bacana mesmo...mas sinceramente que saco! essa historia do cine ja deu!agora sao textos e mais textos sobre assunto ..a verdadeira mudança na hora de ser feita nós nao fazemos...e ela esta chegando de novo é nossa oportunidade de realmente mudar.. as eleiçoes vem aí ...abraços aos amigos oeirenses...

  • Olavo Braz Barbosa Nunes Filho, Teresina-PI disse:
    Deixado em 14/05/2010 às 08h00

    Que texto! Uau....redondo.Aliás isto não é um simples texto.Isto é uma aula magnífica.

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