Há histórias que começam com uma decisão. A de Jhordann Smith começou com um passo.
Há pouco mais de um ano, o jovem oeirense olhava para os quilômetros como quem olha para uma estrada distante demais para alcançar. Com cerca de 150 quilos, correr mais de 10 quilômetros não fazia parte de sua realidade. Caminhar já era um desafio. E foi justamente caminhando que ele decidiu começar.
Sem saber exatamente até onde chegaria, Jhordann começou a colocar o corpo em movimento. Um dia depois do outro, uma caminhada depois da outra. O que parecia pequeno foi ganhando espaço. Os passos ficaram mais longos, o fôlego começou a responder de outra maneira e, quando percebeu, a caminhada já havia dado lugar à corrida.
Hoje, cerca de 30 quilos mais leve, ele corre mais de 10 quilômetros.

O número impressiona, mas não conta sozinho o tamanho da mudança. Entre os 150 quilos de pouco mais de um ano atrás e o corredor que agora se prepara para uma prova em Salvador existe uma parte da história que não aparece na balança: o esforço dos treinos, os dias em que o corpo não respondia como queria, a disciplina para continuar e a coragem necessária para começar novamente depois de um dia difícil.
“Quando olho para trás, percebo que a maior conquista não está somente nos quilos que perdi ou nos quilômetros que hoje consigo correr. Está em tudo o que precisei construir durante esse caminho. Há um ano eu caminhava. Hoje, corro mais de 10 km. Isso me faz acreditar que a gente é capaz de ir muito além do que imagina”, conta.
A transformação foi sendo construída no cotidiano. Vieram os primeiros quilômetros, o fortalecimento, a musculação, os cuidados com a alimentação e o acompanhamento profissional. Vieram também a espera, a adaptação e a paciência para entender que o corpo precisava de tempo.
Não foi uma corrida contra o relógio. Era, antes de tudo, uma corrida contra aquilo que Jhordann acreditava ser o seu próprio limite.
E os limites foram mudando.

A distância que antes parecia impossível passou a ser alcançada. Depois, repetida. Depois, aumentada. Cada treino passou a guardar uma pequena vitória que talvez só ele soubesse medir. Um quilômetro a mais. Um pouco mais de fôlego. Uma recuperação melhor. A sensação de terminar uma corrida que, meses antes, ele sequer conseguiria imaginar começando.
Agora, essa estrada chega a Salvador- Bahia.
Jhordann está inscrito para participar da Maratona Salvador 2026. Vai sair de Oeiras levando no peito um número de competição, mas carregando consigo algo que não cabe em uma medalha: a memória de quando tudo começou.
Para quem o vê hoje correndo mais de 10 quilômetros, talvez seja difícil imaginar aquele primeiro momento. O homem que hoje treina para uma grande prova também foi aquele que precisou começar devagar, respeitando o próprio corpo e descobrindo, pouco a pouco, que podia ir além.

“Eu não quero que as pessoas olhem para mim e pensem apenas no resultado de hoje. Quero que entendam que existiu um começo. Existiram dificuldades, inseguranças e dias em que continuar foi uma escolha. Se a minha história conseguir fazer alguém acreditar que também pode começar, mesmo que seja devagar, tudo isso já terá valido ainda mais a pena.”
A corrida também mudou a maneira como Jhordann conta a própria história. Nas redes sociais, ele começou a registrar o processo em vídeos. Não apenas os quilômetros percorridos, mas aquilo que existe antes e depois deles: os treinos, o fortalecimento, a alimentação, a disciplina, o cansaço e as dificuldades.
É uma espécie de diário de uma mudança ainda em curso.
Porque a história de Jhordann não termina nos 30 quilos perdidos, nem nos mais de 10 quilômetros que hoje consegue correr. Ela continua a cada treino, a cada manhã em que calça os tênis e sai para correr, a cada nova distância que se apresenta.
Quando chegar a Salvador, ele levará consigo a lembrança de onde tudo começou: em Oeiras, caminhando, quando correr mais de 10 quilômetros ainda parecia uma realidade distante.
E agora há uma nova linha de chegada esperando por ele em Salvador.




