Lua em Oeiras
(*) Por Ferrer Freitas
Não sei precisar, mas parece que a primeira ida de Luiz Gonzaga a Oeiras foi em janeiro de 1954. Lamentavelmente eu estava ausente, de férias no então povoado São José do Peixe, em casa da saudosa tia Salete. Ainda bem que minha tia-avó Naninha (Ana Mendes da Silva), fã de carteirinha do rei do baião, não estava (de férias) e foi a seu show no Cine-Teatro, levada pelo mano Toscano. Quando retornei,falou-me, de alma lavada, que vira seu ídolo, ela que não perdia um só programa seu pelas ondas da então famosíssima Rádio Nacional do Rio de Janeiro, mesmo com certa dificuldade na transmissão de muito chiado. O programa, acho que às sextas-feiras, iniciava e encerrava com a canção Boiadeiro, de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, este, vejam só, famoso por marchinhas carnavalescas.
Vale dizer que um dos responsáveis pela ampla divulgação em Oeiras de Luiz Gonzaga, o Lua, apelido que se atribui ao violonista Dino 7 Cordas, por conta de seu rosto redondo, foi outro fã ardoroso, o Cônego Antônio Cardoso de Vasconcelos, ou simplesmente “o Cônego”, então pároco. E o fazia através de um único alto-falante colocado no poste da Casa Parochial (com "ch" mesmo). Toda noite, após o terço, que ele puxava andando pela nave central da Matriz, antes da bênção do Santíssimo, sentava em cadeira de balanço no corredor de entrada e ficava indo e vindo a quarto próximo, que adaptara para estúdio, substituir os discos, de uma só música em cada lado. Algumas jamais esqueço, como Mangaratiba, Chofer de Praça, Baião de Dois, Meu pé de Serra, Cintura
Fina, Vem Morena e, como não poderia deixar de ser, Asa Branca. A coisa ficava de tal modo animada que juntava muitos ouvintes na calçada da Praça da Bandeira, canto da balaustrada que a separa do PasseioLeônidas Mello.
Soube agora de uma segunda ida sua a Oeiras, em 1985, para show na Churrascaria B. Maroca, à época já residindo em Pernambuco, entre Recife e Exu, com o intuito de construir nesta, sua terra natal, a “casa da memória”, além de um hotel. Registre-se, de passagem, que de lá, Exu, é também natural a heroína da Confederação do Equador, Bárbara de Alencar, que tem descendentes em Oeiras. Uma sua neta, Carolina, contraiu matrimônio com Antonio Manoel de Freitas Fragozo, tabelião público dos tempos do governo de Manoel de Sousa Martins. Do casal nasceu, entre outros filhos, Antônio de Alencar Freitas (Totonho), que vem a ser pai de Waldemar, Mário, Clóvis, Joaquim (ainda vivo, com 98 anos), Alcides e Salomé, a genitora do ex-deputado Juarez Tapety ,que, portanto, é tetraneto de Bárbara de Alencar. Registre-se que ela era avó do romancista José de Alencar.
Ainda sobre a primeira apresentação de Luiz Gonzaga em Oeiras, merece ser citado fato, até pelo lado pitoresco, que pouco tempo depois apareceu na cidade outro sanfoneiro que se intitulava o "doutor do baião", na maior desfaçatez, pois assim já era chamado o parceiro de Lua Humberto Teixeira, cearense de Iguatu. Como a boa plateia presente constatou logo de início tratar-se de falso artista, a vaia comeu solta. Foi preciso seu André Holanda, à época delegado de Polícia, juntamente com seu Assuero Rêgo, arrendatário do Café Oeiras, retirarem o farsante pelos fundos do cine, obrigando-o a pular de janela (do palco) bastante alta, não sem antes ouvir o conselho de tomar um rumo com a brevidade possível.
(*) Ferrer Freitas é do Instituto Histórico de Oeiras