“Segue inspirando”:artigo de Sônia Terra lembra os 60 anos de Francisca Trindade
25/03/2026 - 15:59Francisca das Chagas da Trindade morreu aos 37 anos vítima de um aneurisma cerebral.
Por Sânia Mary Mesquita
Que diferença faz quantos anos refazemos esta rota ou quantas gerações já seguem este caminho? Crianças, jovens, adultos, idosos percorrem as ruas estreitas, vencem os becos, transpõem as pontes, todos acorrendo ao Bom Jesus.
Do alto do colina, do Horto das Oliveiras, enquanto os tecidos roxos se misturam as pernas procuram o melhor ângulo para que os olhos vejam a imagem do Bom Jesus passar, ao toque da banda, inspirando o aroma dos incensos e do silvestre alecrim colhido nas encostas dos morros.
Desde a quinta-feira nada está em seu lugar, toda a cidade se movimenta para receber os milhares de romeiros que vêm de perto e de longe, chegando de carro, ônibus, van, ou a pé. Alguns usam túnicas roxas cujas barras se enchem de poeira da estrada, outros carregam cruzes ou levam pedras na cabeça, e há os que têm pés descalços, em busca do seu encontro pessoal com Jesus.
Quando amanhece o sol da sexta-feira as praças estão tomadas pelas romarias, os encontros e reencontros se multiplicam a antecipar o encontro da Mãe Dolorosa com o Cordeiro Imolado que se dará tendo o Paço Municipal como testemunha ao cair da tarde.
São dias típicos, permeados de manifestações genuínas de fé. É a semana de Passos. É o grande chamamento aos tradicionais rituais sagrados e profanos, desde as promessas populares às comidas quaresmais com abstinência de carne, mas com fartura de significado, dos casebres até os casarões abastados.
O sol a pino indica a hora do Ofício, um canto sofrido e ritmado a narrar a Paixão e Morte de Nosso Senhor. Ao meio dia nenhum fiel entra ou sai da vetusta Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, lotação completa, abanadores em punho em busca de uma brisa que seja. É a emoção que transpira não só pelos poros, como também pelas lágrimas e pelas vozes embargadas.
O fervilhar invade o largo do Rosário até que se irrompe o burburinho das vozes com o canto do Miserere e o lamento da Verônica. A multidão se põe cadenciada pela banda de música a seguir a imagem do Bom Jesus, o cortejo com as Marias e todo o povo, rumo às paradas de Passo em Passo, a curtos passos, espremendo-se entre o conjunto arquitetônico da velha Oeiras.
Em cada casinha daquelas uma história de família pra contar, o trabalho artesanal de confecção das Flores de Passo, com tamanha dedicação e zelo pregadas no delicado talo orgânico. Depois de cada bênção, cada pessoa ali deseja levar uma florzinha pra casa, e um maço de alecrim, na certeza de que leva pra seu recanto uma bênção especial até o ano que vem.
A Via Sacra gigante segue a céu aberto, e, já quando a noite se escurece, no “Passo do Engano” a imagem de olhar manso e humilde gira por três vezes, ocasião em que as vozes todas se calam, em profunda prece e atenção, até que o som da banda de música Santa Cecília dá o sinal para os caminheiros seguirem a jornada.
A peregrinação não termina quando as imagens do Bom Jesus e de Nossa Senhora das Dores são inseridas na Catedral tricentenária. Ali, paradas frente a frente, elas testemunham as manifestações de cada fiel que se achega pra agradecer, pedir e despedir-se, sempre no pensamento “até para o ano” ansiando estar cada qual no seu lugar quando Jesus passar.