Claro que sabia que o meu irmão primogênito, Paulo Jorge, falecido no dia 16.07.2026, quinta-feira passada, no Hospital São Marcos, em Teresina, vítima de ataque cardíaco, era benquisto.
No entanto, em face do seu adoecimento, há algum tempo, e a profundidade das expressões pesar manifestadas pela população oeirense, fiquei estupefato.
De memória privilegiada, há dois anos, foi acometido pela Síndrome de Lewi, isto é, de demência, doença que se caracteriza por alucinações visuais, flutuações cognitivas, sintomas motores semelhantes aos do Parkinson.
A última vez que nos vimos foi na sexta-feira anterior — véspera daquele surto cardiovascular — à boca da noite, na calçada da casa do vovô Joel Campos.
Ao chegar, com a sua marcha lenta, quis logo se sentar numa cadeira. Porém, ergueu-se e se dirigiu ao interior daquela vivenda para, como sói acontecer, tomar a bênção da tia Amália, 102 anos. Antes, esteve na casa do vovô Natu Reis. Parecia que estava se despedindo da parentela…
Depois, ao lado de Nayra, sua esposa, do primo Joel Neto e da nossa irmã Ceiça, entabularmos conversações. Tratamos de amenidades.
A certa altura, relembrei-lhe, para seu agrado, um episódio havido no início da sua pré-adolescência, abaixo narrado.
O Dr. Laurentino Pereira Neto, médico, natural de São João do Piauí, formado na Bahia, veio trabalhar, em Oeiras, nos anos quarentena.
Bem conceituado, tornou-se vereador, prefeito, deputado estadual e federal. Fixou-se, em definitivo, em Brasília. Mas permaneceu com a sua inscrição eleitoral nesta 5ª Zona.
Em 1966, veio votar nos candidatos da sua corrente partidárias, o antigo PSD. À noite, véspera das eleições, passando defronte à Farmácia Popular, de propriedade do meu pai, Ditinho Reis — contígua à nossa residência —, foi atacado por Tarzan, nosso cachorro de estimação. Uma perna de sua calça foi rasgada.
A minha mãe, Aldenora, adquiriu uma fazenda e mandou confeccionar nova vestimenta para aquele ilustre homem, ao tempo em que ficou com a avariada. Mandou ajustá-la ao tamanho de PJ. Era gordo.
Assim, ganhou sua primeira calça comprida. Não gostava dessa indumentária. Além de sofrer mangação dos garotos do seu tope — baixou as calças, diziam —, chorava muito porque alegava que tal roupa, de tecido sintético e grosso, nem sei ao certo, o espinhava.
Foi um menino-homem. Mourejava com afinco no comércio do nosso genitor. Isso se estendeu até após sua formatura como farmacêutico-bioquímico. Muito colaborou na consolidação familiar. Dedicado, desde muito cedo, mereceu a confiança da clientela.
Há 40 anos, montou a sua afamada Drogaria do Povo, onde pontificou sua missão profissional. Apegado a valores telúricos, vínculos fraternais. Temente a Deus. Queridíssimo!
Papai muito se orgulhava do PJ, mas dele sentia duas contrariedade. A uma porque não tinha a menor afinidade com criatório de gado, sua grande paixão. Não sabia arrear uma vaca, tirar leite, montar em cavalo.
Para o ódio do nosso velho, na Fazenda Golfes, enquanto a meninada andava amontado em animais de tração e carga, no osso, o perfilado mandava selar um jumento e o nativo Antônio José, a pé, segurando o cabestro, o guiava pela redondeza. Gostava de andar acolitato.
A outra, apesar das favoráveis condições criadas, relutou, reiteradas vezes, se enveredar na faina partidária.
Paradoxalmente, mamãe, fervorosa militante política, nunca o incentivou concorrer a qualquer cargo eletivo, o que, muito provavelmente, lograria êxito.









