O galope das palavras
*Por Rogério Newton
Era o poeta da cidade. Via-o passar todo dia pela minha rua, guiando o carro, vindo da Rua do Fogo, onde morava. Caía-lhe bem o verso de Drummond: “o homem sério atrás do bigode”. Vinha com frequência à minha casa, chamado por meu pai, para tratar nossas doenças da infância. O velho, sempre falante, procurava agradá-lo e demonstrar gratidão.
O poeta exercia a medicina com paixão. Era para mim um enigma, pois eu o via homem, mas nunca lera nenhum poema dele. Até que um dia, o encanto aconteceu: um livro de páginas amarelas, com textos de vários autores, apareceu lá em casa. Li seus versos, com os olhos bem abertos, dos quais lembro a cadência e a sonoridade de algumas palavras.
O tempo passou, fui embora. Quatro anos depois, recebo o primeiro romance dele, com uma dedicatória carinhosa do meu pai. A caligrafia impecável, de quem estava dando um presente de valor, que guardo até hoje. Quando regressei, ele havia mudado para Floriano, mas não deixava de ir a Oeiras, que tanto amava. No último dia do ano da graça de 1988, convidei-o para uma entrevista no programa que eu fazia numa rádio local. Ele aceitou sem pestanejar. A partir daquele instante, passei a conhecer o homem, não o mito.
Gostei da entrevista, ele também, apesar de um problema técnico que não pude resolver sozinho no estúdio. Em abril do ano seguinte, passei a editar O Beco, impresso em mimeógrafo e xerox. Postei um exemplar do número zero para ele. Três dias depois, tive uma surpresa: numa carta escrita a punho, o poeta e prosador elogiava o jornalzinho. Fiquei tocado com o manuscrito. Ele já era escritor consagrado e dedicava atenção ao nosso trabalho, cuja proposta logo entendeu.
No segundo número, era impossível não publicar a entrevista gravada na rádio, que valeu outra carta, dessa vez, em papel de receituário, um estimulante poema de circunstância. Enquanto muitos falavam mal, ele nos contagiava de entusiasmo. Mas veio o terceiro número e a coisa começou a azedar, porque escrevi uma crítica acerba contra um Encontro de Escritores promovido pela UBE-PI em Oeiras. O poeta, que era um dos conferencistas, ficou zangado. Na carta seguinte, desceu a lenha em mim, chamando-me iconoclasta e anarquista literário. Não fiquei ressentido: vindas daquela fonte, as farpas me envaideceram. Eram troféus de guerra.
Devo ter ficado com vergonha e acho que não lhe enviei os números 2,5 e 3 d’O Beco, que deu uma guinada, em parte inspirada no Jornal Dobrábil, de Glauco Mattoso. Após a quinta edição, arribei de novo. De pouco siso, deixei de manter correspondência com o escritor. Me arrependo até hoje.
No final da década de 90, o homem que me fez escrever estas linhas estava gravemente enfermo. Fui visita-lo em Floriano, acompanhado por um amigo. Ao nos receber, foi sardônico. Era sua maneira de dizer que apreciava nossa presença e continuava fiel a si mesmo.
Agora, mais de dez anos após sua morte, contemplo as seis cartas que José Expedito Rêgo endereçou a mim. Não as chamo troféus, mas dádivas. Nelas o escritor escreve, mas quem se agiganta é o homem, que fala com sinceridade e tem um olhar compassivo para as coisas do mundo e para mim, a quem dirige palavras de apreço que eu achava não merecer. Quando foi preciso, disse-me o que eu precisava ouvir.
Gosto de pensar nele como um escritor iluminista que amava os livros e a ciência e detestava injustiças sociais. Mas nada disso supera o ser humano que me premiou com o galope das palavras de seus textos e de suas epístolas breves e inesquecíveis.