O rio de minha aldeia
(*) Ferrer Freitas
Há dois anos, convidado pelo oeirense Rogério Newton, escritor, poeta, cineasta e o que mais se queira, desde que pelo meio esteja Oeiras, prestei depoimento para documentário sob sua direção abordando o triste fim do riacho Mocha, cujo intuito primeiro é o de mostrar o que contribuiu decisivamente para seu desaparecimento e o transformou em esgoto a céu aberto. Naturalmente também como forma de apelo ao poder público na tentativa de fazê-lo de novo corrente. E participei de muito bom grado, como acredito tenha ocorrido com entrevistados ilustres, a saber, Cineas Santos, Paulo Machado, Olavo Pereira Filho (dizer o que deles?), sem falar de oeirenses outros residentes na cidade e sabedores da importância do Mocha para a comunidade. Como disse certa vez Possidônio, nosso guru maior, “nada se fez aqui sem o seu concurso”, frase de primoroso texto abordando cheia ocorrida em 22 de janeiro de 1972 após pesada chuva que se abateu sobre a primeira capital e de que ainda extraio este trecho : “E o velho Mocha, pletórico, salta do lugar onde outrora existiu o seu leito, e que os homens destruíram, aterraram, salta dali e, não tendo por onde correr pacificamente, entra pelos quintais, derruba muros, invade ruas e destrói casas.”

foto: meio norte
Pois não é que tive agora a alegria de receber das mãos do próprio Rogério, também roteirista e responsável pela trilha musical, passados dois anos, o documentário com o título acima, adrede colocado para lembrar o poeta português Fernando Pessoa (“Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.”). De já adianto que dará o que falar pelas opiniões emitidas, todas, vale frisar, coincidentes com o que disse Possi em seu belíssimo texto citado, publicado em “O Cometa” de 5 de maio de 1974. A maioria, diga-se, creditadas ao desmatamento das margens onde outrora vicejavam gameleiras, ingazeiras, marias-moles e até mangueirais, bem assim ao desaparecimento dos olhos-d’água de onde a cidade colhia a água de beber e cozinhar via mulheres que eram chamadas de “botadeiras d’água.” Para as residências dos mais abastados em ancoretas transportadas por jumentos. Já a lavagem de roupa se fazia na corrente, riacho abaixo, as peças batidas nos lajedos pelas chamadas “batedeiras de roupa”.
Como a maioria das nascentes do Mocha estava situada na área chamada Soizão, o conterrâneo Zé de Vitória, um dos entrevistados, é de opinião que a obra do açude contribuiu decisivamente para que cessasse a corrente com o represamento efetuado, o que não deixa de ter razão. Ainda assim, vale dizer que mesmo depois o riacho continuou a correr anos a fio, até consumar-se o desmatamento das margens e o entupimento dos olhos d’água existentes ao longo do curso. Acrescenta, com muita tristeza, que um seu parceiro que lá trabalhou ainda hoje diz sentir enorme remorso de ter contribuído para esse triste fim, pois vedou muitas nascentes com cimento concretado. Lembra ainda, com uma ponta de nostalgia, do famoso “poço dos cavalos”, de tal modo profundo que não conseguia, nos seus mergulhos de menino, pegar areia.
E paro por aqui, acrescentando que o filme-documentário de Rogério Newton, sobretudo pelo seu caráter educativo, deve ser mostrado à exaustão em salas, de cinema e de aula. Valeu, Rogério!
(*) Ferrer Freitas é do Instituto Histórico de Oeiras