Por dever de gratidão
(*) Por Ferrer Freitas
Lamentei deveras não estar presente à solenidade de inauguração do busto do médico oftalmologista dr. Paulo de Tarso em frente ao prédio da Câmara Municipal de Oeiras, antigo Posto de Higiene que ele chefiou anos a fio. E lamento sobretudo pelo dever sagrado da gratidão. Não fora sua presença na cidade no dia 5 de agosto de 1964 (que ano!) e não sei o que seria de mim.
Já morando no Rio de Janeiro há dois, vim de férias rever minha família, amigos e a velha terra que me serviu de berço e que tanto amo. Aí ocorre o inesperado, atroz e fatal. Uma pedra lançada pela mão do destino perfura meu olho direito. Contava eu pouco mais de 20 anos e o funesto evento ocorreu por volta de meia-noite e meia. Fazíamos uma serenata de radiola, aquela que só ocorria quando não era encontrado um acompanhador de violão, de preferência Gerardo Queiroz, o velho e querido Careca. Lembro bem de alguns amigos que estavam na "siúfa", como a galera também chamava uma seresta naquele tempo, coisa saída da cabeça de Gerson Campos: João Leite, B. Barros, Paulo de Tarso (filho), B. Maroca e Meroveu (de seu Bernardo), para citar somente estes.
A primeira "estação" (parada) foi na rua Zacarias de Góis e Vasconcelos, em frente à casa de Cícero Coriolano, para atender pedido (o primeiro) do saudoso João Leite, que estava de namorico com Mary France, filha de Cicim, como também era chamado seu pai. Aí, sem mais nem menos, resolvo levantar-me da calçada do lado contrário à casa e atravesso a rua para pedir que não deixassem de colocar a música de um disco (compacto) que trouxera do Rio, cantada por Ray Charles, “I Can’t Stop Loving You” Dei somente três passos na noite escura para ser atingido pela pedrada. Foi um horror! Ato contínuo, por sugestão do Paulinho de Tarso, fui levado ao Oeiras Clube, ali bem próximo, para rápido exame de seu pai que sempre àquela hora ainda participava de um joguinho de "pif-paf" com amigos diletos.
Feita a constatação do pior, fui levado para casa, à época na Praça da Bandeira. Aí, na parte da tarde do mesmo dia, fui submetido, em seu consultório, a procedimento cirúrgico de nome enucleação, que mereceu elogios do oftalmologista com quem me consultei no retorno à cidade maravilhosa, onde permaneci por mais dez anos. Nunca esqueço de alguém que lembrou para mim, em dia de profunda tristeza pelo ocorrido, nomes de pessoas que só tinham um olho e foram felizes e admiradas, citando, entre muitos, Sammy Davis Jr., um dos maiores “show-mans” americano.
Lamentei muito, volto a frisar, não estar em Oeiras na homenagem ao grande oftalmologista, até para ter a oportunidade de abraçar seu filho Elizabeto, também brilhante na mesma especialização médica, querido Amigo de uma infância que já se faz distante. Quero ainda parabenizar, pela iniciativa, a Câmara Municipal.
(*) Ferrer Freitas é do Instituto Histórico de Oeiras