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A Velhice

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Por Ferrer Freitas

Taí um tema por demais recorrente, o envelhecimento, ou como gostam os poetas, a fase outonal da vida. Meu avô Ferrer, figura emblemática de Oeiras, era um aventureiro na verdadeira acepção do termo. Parecia que veio ao mundo, o que ocorreu na última década do século XIX, pra levar a vida na valsa. Pintou e bordou e morreu com mais de oitenta anos. Gostava, no entanto, de repetir que a velhice era uma miséria e que velho servia até pra fazer medo a criança, pois presenciava muita mãe ralhar com filho ameaçando chamar um velho se ele não se comportasse.

O maior dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues, quando perguntado que conselho daria aos moços, respondeu de forma incisiva: “que envelheçam!” Enfartou de tanto cigarro, antes de chegar aos setenta. Esse mesmo entendimento levou o genial compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, ainda não tão velho (morreu com 60 anos) a compor, entre outros belíssimos sambas-canções, um de título “Esses moços, pobres moços”, de versos iniciais assim: “Esses moços, pobres moços,/ah, se soubessem o que sei./não amavam, não passavam/aquilo que já passei!...”. A grande atriz Tônia Carrero, segundo muitos o mais belo rosto no Brasil do século XX, quando perguntada como encarava a velhice (faz 88 no dia 23 de agosto), saiu-se com esta pérola: “muito bem, levando em conta a outra alternativa!”. Em outras palavras, só não envelhece quem morre moço.

Bem, mas porque abordo o tema, já que não me considero um idoso, embora tenha passado de “meia ponto cinco”, idade levada em conta para tornar alguém um? De cara respondo. Porque acho que nenhum outro país trata seus idosos tão mal como o Brasil. Mesmo existindo uma lei (estatuto) adrede para protegê-los, muita gente está se lixando. O que se vê em bancos, supermercados, ônibus é uma lástima, como diria o caro jornalista Deoclécio Dantas. No caso dos supermercados então, nem se fala. Na maioria das lojas há caixas para atendimento preferencial, mas dificilmente o empregado tem coragem de parar um cliente jovem para dar vez a um idoso. Nos de atendimento exclusivo ainda há um certo respeito, mas pessoas que aproveitam promoções de pagamento a longo prazo (cheque-pré), muitos merceeiros, têm a desfaçatez de levar um velhinho de casa a tiracolo pra ter vez com seus dois ou três carros, daqueles maiores, abarrotados de compras. É pagar pra ver, sem trocadilhos!

Não falarei do atendimento em agências bancárias, pra não ser entediante. Com relação a ônibus, devo dizer que nunca vi um moço levantar-se para ceder a cadeira a um idoso. Talvez seja porque pouco ando em coletivos, menos por não gostar e sim pela longa espera por eles. Finalmente, não custa repetir aos jovens de hoje o óbvio: eles serão os idosos de amanhã, a não ser, evidentemente, que advenha a alternativa de que fala a ainda bela Tônia Carrero, metaforicamente, “a indesejada das gentes” do poeta Bandeira 

Ferrer Freitas é do Instituto Histórico de Oeiras

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