13 de maio e a liberdade que parou na assinatura
13/05/2026 - 07:24O fim oficial da escravidão no Brasil e as marcas deixadas por uma abolição sem reparação social
* Por João de Carvalho Fontes
No jornal Ágora 15, eu publiquei uma crônica intitulada: Na Rota da Ciência, em que contei um fato acontecido comigo fora do Piauí. Qualquer piauiense que já foi além de sua cidade natal, sabe que o preconceito lá fora existe, mas eu, que sou “nômade”( nasci numa fazenda , onde vivi meus primeiros 6 anos, e nunca mais parei de migrar, em busca de conhecimento, aprendi a encará-lo com humor, mesmo porque só acontece até você dizer a que veio). Foi esta a ideia que eu quis passar na crônica.
O jornal Ágora é distribuído em Teresina, Piripiri, Piracuruca e em Oeiras, nesta cidade, a leitura de algumas pessoas foi equivocada. Num certo dia, na minha correria diária em Teresina, ao dobrar numa esquina, escutei o grito do Jota Jota, escritor/poeta de Oeiras, alertando-me que num portal da cidade, eu estava sendo taxado de preconceituoso, por causa da crônica, porque algumas pessoas não entenderam o uso da palavra escuridão, num contexto em que eu a usava no sentido de trevas.
A advertência do conterrâneo me trouxe angústia e ironia, num açoite. E eu pensei: “Que engraçado! Eu que durante toda a minha vida, combati preconceitos, agora sou chamado de preconceituoso por algumas pessoas de minha terra, numa crônica em que eu critiquei o preconceito que existe lá fora, não em Oeiras! Só se for preconceito para com o preconceito!”. Foi quando eu tomei a consciência de que as palavras, uma vez publicadas, já não pertencem ao autor, porque o leitor pode fazer o que quiser com elas. Também me lembrei de um ditado grego que aprendi há muito tempo: “Cada um de nós somos três pessoas: o que a gente pensa que é, o que os outros pensam que nós somos e o que nós realmente somos”. Esta memória me tranquilizou, porque eu refleti que o fato de uma pessoa interpretar um texto meu do seu jeito, não quer dizer que eu seja o que ela quer que eu seja. Mas foi o Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, que confirmou minha convicção. Neste dicionário, eu encontrei os símbolos: noite e trevas, na conotação de escuridão. “Como todo símbolo, a noite apresenta um duplo aspecto, o das trevas onde fermenta o vir a ser, e o da preparação do dia, de onde brotará a luz da vida”.
Acender uma vela na escuridão era a conotação do texto. A mesma conotação do meu poema Missão, publicado no mesmo jornal, ao lado da crônica:
portar-se aberto
ao sol da realidade
num mundo onde ilusões
se dirimiram
é o despertar do homem
ao tempo
em que é preciso arder
para trazer às trevas claridade
Assis Brasil defende que ao criticar um autor, é preciso conhecer a biobibliografia, e na minha, no meu livro Ítacas, publicado em 2004, o poema Oeiras é ilustrativo do meu olhar sobre a cidade e as pessoas:
do morro do leme tudo é mais bonito
o bairro negro irradia brilho
o suar dos tambores ecoa distante
é o grito da Várzea dizendo que existe
a casa do Visconde desponta ao longe
o sino da matriz ressoa romântico
levando-me de volta à placidez das horas
generosas, pueris, de minha aurora
* João de Carvalho Fontes é médico neurologista