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Eia! Eia! Eia!

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Gilvanni de Amorim entregou-me os originais de um livro de poemas. Ele queria conversar sobre os textos e trocar ideias. Meses depois, voltou para mostrar o resultado do seu trabalho de reescritura e de algum tempo de “estado de gaveta”. Na semana passada, reapareceu com o livro impresso: Ode ao Amor Desvanecido, belíssimo projeto gráfico de Antonio Amaral, lançado sexta-feira, na AABB de Teresina.

Já no título, o autor se revela, pois ode é um tipo de composição lírica, inventada pelos gregos. Claro que não escreve como os antigos: seu lirismo é moderno. Também não se circunscreve ao figurino da ode, por definição, composta por versos de medida igual, de tom alegre e entusiástico.

Ode ao Amor Desvanecido é constituído por poemas curtos. O único texto longo é o que dá título ao livro. Em geral, há um esforço do autor em busca da concisão, versos ou linhas curtas, agrupados em pequenas estrofes. O poema de abertura, Duplo, é um antisoneto em que predomina a economia de vocábulos, que, junto à adjetivação contida e à ausência de pontuação, podem ser consideradas as características de estilo mais presentes nos poemas iniciais.

Manhã é um bom exemplo de lirismo vazado em concisão: “Quando os raios de sol / Fizerem a festa de luz / Virá abrir a casa lotérica / A moça de olhos claros / Volverá os olhos para mim? / Ou trará apenas o sol?”

Mas o lirismo do poeta não se compraz na admiração da beleza. Ele tem seus olhos também voltados para problemas do homem, do mundo e sua sordidez, em que, muitas vezes, a felicidade é uma invenção: “Chove / Da janela assistimos / Ao feitiço da chuva / A vertigem das águas / É uma ilusão / E desvanece dores do cotidiano / Trevas que oprimem / A chuva é um sonho / E faz acreditar / Que somos felizes” (Ficção).

Pode-se falar em “poemas engajados”. Nesse sentido, o poeta escolheu o lobo como animal símbolo dos “lavradazes” que “uivam verborreias” e “ladram como cães / Boquirrotos rotos / Ratos dentudos”. Mais explícito, impossível. Nessa mesma linha, são os poemas Lobos, Lobos 2, Noturno, Segunda Elegia, O Ovo e Malefihcio.

Se o lobo foi alçado à imagem dos “podres poderes”, o vinho é a bebida eleita pelo poeta, repetindo tradição grega, árabe e judaica. Poesia Vinho é quase um exercício metapoético, em que o autor procura sentido para seu ofício: “Qual poesia / Senão a do riso / Do salário justo? / Pura poesia! / Suor no rosto / Doce vinho”. O mesmo tema está presente no erótico Colheita e em Festim, onde “Mefistófeles bêbado é um anjo de asinhas azuis”.

Vários são os motivos da criação poética. Isso é natural, quando se trata do primeiro livro, em que, normalmente, o poeta não se fixa numa unidade temática. E também porque a escritura, muitas vezes, serve aos múltiplos interesses e perplexidades do “eu lírico”, como, por exemplo, os fragmentos da memória da infância.

A ousadia do poeta consiste na Ode ao Amor Desvanecido, que fecha o livro. Ao contrário dos demais, neste poema não há contenção, nem economia de palavras. Embora tenham passado por um processo posterior de elaboração, os versos foram criados num fluxo contínuo, durante uma madrugada em que o poeta ficou insone, em intenso diálogo interno. Ao ler o resultado, ele concluiu que não passava de delírio e optou por nunca publicá-lo. Mas mudou de ideia, após ler Como e Por que me Tornei Escritor, de O. G. Rego de Carvalho.

Fazer poemas não é fácil. E quando o poema é longo, a forma escolhida se insere na tradição e já foi manuseada por grandes criadores, como Fernando Pessoa e Mario de Andrade, o desafio é ainda maior. Gilvanni de Amorim sabe disso, e os tem como modelos. Mas, depois de tomar a decisão, não se deteve em publicar sua Ode, que se assemelha a uma tela onde abundam as impressões arrebatadas de um pintor, que celebra e ao mesmo tempo desdenha de sua própria arte, oriunda das entranhas e dos esconderijos da mente emotiva e racional. Daí se compreende, por exemplo, o questionamento seminal do próprio ato de escrever e do poeta, que não poupa a si próprio: “Eia! Não creias no que escrevo! Sou a / Blague! / Eia! Estes versos são um blefe! / Eia! Sou contraditório, incongruente! / Eia! Abaixo os que se esforçam por / coerência ! / Eia! Viva a Poesia! / Eia! Viva o Amor! / Eia! Eia! Eia! Eia!

No final das contas, Ode é uma celebração da vida, com tudo que ela tem de sórdido e de sublime. Para fazer jus à certa tradição ocidental, não faltam vinho e a companhia dos poetas. Além dos já citados, o autor rende sua admiração a Baudelaire, Rimbaud, Neruda, Garcia Lorca, Vallejo, Whitman, Eliot, Drummond e Adail Coelho Maia, de São João do Piauí, terra natal do autor. Sem falar em Mario Quintana, não incluído na Ode, a quem dedica o poema Anjo.

Anjo, porém, é o poeta, que, mesmo diante da náusea, diz: “Meu coração como uma flor, / Se abre para o dia que nasce”.

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