* Por Flávio Guedes
Aquela manhã começou como apenas mais uma. Era meados de 1988 e o Sol brilhava na altura de oito horas da manhã. Levantei-me ansioso para brincar em mais um fim de semana de minha infância... Mas antes cumpri meu ritual de tomar o café da manhã, meu tradicionalíssimo cuscuz regado ao café com leite... Uma delícia para meu paladar pouco exigente. Sentado no batente da porta da sala um garoto me esnobou: "No meu café da manhã eu como é bolo". Dei de ombros e continuei me deliciando com aquele prato que as mãos de minha mãe magicamente preparara.
Tomado o café fui pra lateral direita de minha casa, que naquela hora fazia uma sombra gostosa. Sentei-me num monte de areia e comecei a brincar com palitos de fósforos que na minha imaginação transformavam-se em cavaleiros medievais, princesas, monstros e uma série de personagens que os desenhos da época me ajudavam a imaginar. Eram os anos oitenta que também para a infância de quem os viveu, foram mágicos!
De repente observei que na casa 14, mais uma família chegava para morar. Aquela casa parecia um hotel tamanho era o rodízio de moradores que por ali passava. Na porta da casa, avistei de onde eu estava um garoto que parecia ser de minha idade pelo tamanho, com negros cabelos lisos, olhos amendoados e uma pele muito alva. Olhamo-nos, sorrimos e logo o convidei para comigo brincar. Ele veio de pronto. Foi então que peguei de minha mãe dois vidro de talco em formato de elefante e alguns outros objetos para alimentar mais nossa imaginação. Apresentamo-nos e constatei então que ele tinha oito anos, como eu. Brincamos alí como se fossemos amigos a vida toda, mesmo curta a vida como era a nossa. E logo tornamo-nos os melhores amigos um do outro.
Eu era o mais velho de três irmãos, ele era o mais velho também de três. Eu era sagitariano de dezembro, ele era sagitariano do mesmo mês. Nossas casas eram irmãs, uma 13 outra 14, e nos tornamos também irmãos, por escolha, como costumávamos dizer.
Crescemos numa infância elétrica, cheia de brincadeiras de movimento. Esconde-esconde, trisca, cola, barra ou bandeira, polícia e ladrão, pêra uva ou maçã, cantigas de roda, peteca e um sem número de brincadeiras que costumávamos inventar para nos divertir. Outros meninos foram chegando na vizinhança para aumentar o círculo de amizades, e a nossa ali, cada vez mais forte. E brigávamos, e ríamos, e cantávamos, e chorávamos. Lembro-me que sempre que ele tinha algo, ele ia em minha casa dividir comigo. Eu nunca fora tão altruísta, mas com ele aprendi muita coisa. Como ser uma pessoa melhor. Se a inocência existe e a bondade também, ele era a personificação disso.
Crescemos juntos, naquela irmandade sem fim. E nem brigas entre nossos pais puderam abalar nossa amizade. Pelo contrário, foi exatamente a nossa amizade que acabou com as diferenças entre nossas famílias.
Adolescemos... Eu seguia regularmente meus estudos e ele começava a desandar nos seus. Eu começava a namorar e ele continuava a brincar. Eu experimentava sofrer, e ele fumar e beber. Saíamos para festas, tertúlias, carnavais... vivíamos... E recordo-me agora daquele réveillon, o segundo que nos divertimos juntos, sem a presença de nossos pais, em que, adolescentes com 14 anos, ele tomado pela bebida no centro desportivo de Oeiras, rodeado de outros amigos, todos altos no álcool e eu em minha casa, de onde dava para ver a movimentação daqueles meus vizinhos de infância, observando-os e preocupado com meu melhor amigo; ciúmes talvez, por não querer ter ido também para lá.
Em certa hora porém, não resisti e fui buscar meu amigo, e quando lá cheguei, vendo aquela cena que eu não me permitira atuar, fui abraçado por ele que tendo na outra mão uma garrafa de bebida, falou em alto e muito bom tom, para todos que quisessem ouvir: "Eu amo esse cara! Eu amo esse cara! Esse cara é meu irmão!" Não conseguiria descrever o que aquela declaração significou pra mim. Ele era meu irmão, sempre fora, sempre soubemos disso. Mas era uma certeza só nossa. Naquele momento, aquela certeza fora compartilhada com uma dúzia de amigos que não interpretaram mal a afirmação, mas nos olharam e calaram.
Levei-o então pra minha casa, deitei-o no sofá da sala. Olhei-o dormir um sono justo e tranquilo e sonhei... Se ele sonhava não sei... Sei que sonhei...
* Flávio Guedes é dramaturgo, poeta, ator e cineasta
Sonhei...


