Zoon Politikon
* Por Xico Carbó
A expressão acima foi utilizada há mais de 300 anos antes do nascimento de Cristo pelo filósofo grego Aristóteles para descrever a natureza racional do homem em sua interação necessária com a polis. Este conceito aristotélico é, segundo o sociólogo Daniel Rodrigues, um dos mais exaustivamente estudados na filosofia política e um dos argumentos fundamentais para a organização social e política.
No entanto, para Aristóteles, o homem é um Animal Político na medida em que se realiza plenamente no âmbito da cidade. Segundo ele a “cidade” ou a “sociedade política” é o “bem mais elevado”, ou seja: a sociedade precede o indivíduo; em outras palavras: a sociedade é mais importante que o indivíduo(grifo nosso). Por isso os homens se associam em vários níveis de agrupamentos: família, cidade, Estado (“Política” CAP. I Livro Primeiro)
Dentro desses agrupamentos o homem agiria orientado por uma moral, de modo que suas ações e juízos resultaria ora em vício ora em virtude. Seria o meio termo, o ideal/excelência, o qual se conseguiria pelo treinamento e formação do hábito. Meio termo, aqui, não se trata de um cálculo preciso, senão de sensatez diante das circunstâncias apresentadas. “Não agimos certo porque possuímos a virtude ou a excelência e sim, antes, as possuímos porque agimos certo.
Contrapondo-se à idéia aristotélica, temos hoje, o que os teóricos da sociedade de massa chamam, individuo atomizado. Ou seja, “os indivíduos só conseguem se relacionar como átomos em um composto físico ou químico”. A sociedade se fragmenta; carece de relacionamentos significativos; o indivíduo torna-se um número a mais na massa: desarticulado politicamente, manobrável, desprovido de identidade, facilita a subordinação do coletivo à lógica individual, acentuando o processo de fragmentação social; o senso comum da lugar ao individualismo racional. No caso em foco, o Cine-Teatrao-Oeiras poderia ser o grande mediador dessa vulnerabilidade.
Assim sendo, parafraseando Aristóteles, podemos dizer, por exemplo, que entre o cargo e a falta de vontade política(há décadas), existe a responsabilidade social; existe a gestão pública eficaz (não fosse o Monumenta, o Cine teria desabado). Sejamos coerentes: desde quando houve realmente alguma preocupação em tratar a cultura oeirense como política pública?
Não confundir vontade política com vontade de político. Aquela é a “capacidade de resolver as necessidades de uma sociedade”; “não pertence a ninguém; é um sentimento social resultante da integração das vontades de cada um dos integrantes de uma sociedade”; segundo ainda o Instituto Ethos, não existe responsabilidade social sem ética. A outra vontade não vou comentar. “Somos o que repetidamente fazemos”
Sem querer ser dogmático, acreditamos que se continuarmos agindo orientados pelas vontades individuais, Oeiras nunca existirá como polis.
O que tudo acima tem a ver com o Cine Teatro Oeiras? TUDO!
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Bom, o caso em foco não se trata, pura e simplesmente, de uma questão de politicagem, nem de oportunismo como querem alguns. Requer uma abordagem histórica do problema .
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Reportando-me diretamente à questão do Cine-Teatro, é claro que, como espaço público que o é, deveria cumprir sua função social: fomentar, facilitar, potencializar e desenvolver a atividade teatral e de cinema na cidade. Não apenas servir como um espaço de representação, mas inserir-se com postura ética no ambiente social, assumindo estratégias empreendedoras(responsabilidade social) para melhor desenvolver o indivíduo e a comunidade . Fácil não é, mas com uma atitude pro-ativa é possível. Urge uma gestão(diretoria) eficaz, consciente e comprometida. Aproveito para reiterar a sugestão de criar a Fundação Cine-Teatro-Oeiras.
Uma das questões que mais contribui para os baixos índices de práticas culturais da população brasileira é a má distribuição dos equipamentos culturais, que estão instalados nas regiões mais centrais e ricas. Uma pesquisa(2005) realizada pelo IBASE e pelo Instituto Pólis, constatou que das cinco maiores preocupações do jovem brasileiro, no que se refere à cultura e ao lazer, três estão ligadas às condições de acesso. Dentre elas destacam-se a falta de espaços de cultura e lazer e à concentração da oferta nas zonas de maior poder aquisitivo(grifo nosso).
Em Oeiras temos o equipamento “inaugurado”, mas fechado.
Elegendo-se a Democracia Cultural, como conceito de ampliação das possibilidades do acesso da população a experiências culturais e artísticas, entendemos que o nosso Cine-Teatro pode e deve criar condições concretas e objetivas de acesso, produção e fruição de produtos culturais, contribuindo para ampliar as oportunidades dessa Democratização.
O Cine-Teatro-Oeiras, foi construído, como não poderia deixar de ser, dentro da “tradição unanimemente venerada”, obedecendo às normas do espetáculo à italiana, que ocupa posição dominante em todo o Sec XIX e, com algumas exceções, até a metade do Sec. XX. Para Roubine, a representação à italiana, com seu aperfeiçoamento técnico permite os efeitos de ilusão mais perfeitos, conforto aos espectadores(aristocracia e burguesia) e satisfaz a grande maioria dos profissionais de teatro, aparece como o supra-sumo da arquitetura teatral. Ora bolas, tal monopólio de representação, “espelho de uma hierarquia social”, nunca iria se interessar pela democratização do teatro. Em Oeiras não seria diferente.
Se pensarmos em querer democratizar o teatro, teremos, antes de mais nada, que democratizar a relação entre platéia e espetáculo, como sugere alguns:
Artaud pensava livrar os espectadores das regras impostas pela civilização. Uma de suas técnicas foi unir palco e platéia; acreditava, assim, liberar as forças inconscientes do público. Peter Brook afirma: “ posso tomar qualquer espaço vazio e chamá-lo um cenário desnudo. Um homem caminha por este espaço vazio enquanto outro lhe observa, isto é tudo que se necessita para realizar um ato teatral”.
Evidente que não cogitamos nenhuma abolição do palco italiano, nenhuma revolução, creio, apenas que, mesmo sendo tão complexas as soluções podemos adequá-las para outros locais. Afinal de contas, ele, palco italiano, como diz Roubine, agora é objeto de amadurecida reflexão e argumentação, não é mais considerado como uma estrutura natural inerente à arte teatral.
A cena contemporânea tai cheia de espetáculos experimentais, criações coletivas, e diversidades estéticas realizadas nos mais variados locais. Portanto, sem neuras, Mãos à obra!
Só lembrando: Dois Perdidos numa Noite Suja ,de Plínio Marcos, foi encenada a primeira vez, em 1966, no bar Ponto de Encontro, em São Paulo.
*Xico carbó é ator (DRT/PB – 543)