Passeata dos 100 mil
(*) Por Ferrer Freitas
No dia 26 de junho de 1968, morando há 6 anos no Rio de Janeiro, à época cidade-estado (Guanabara), estava no meu trabalho na Superintendência de Urbanização e Saneamento (SURSAN), sexto andar do Edifício Estácio de Sá, quando avistei pela janela aquela multidão percorrendo a rua 1º de Março, todos vindo em direção à Assembleia Legislativa (Palácio Tiradentes) que fora a Câmara Federal até 1960, separada do prédio somente pela Igreja de São José. Como não poderia deixar de ser, lembrei-me imediatamente da Procissão de Passos, a maior de quantas se realizam em Oeiras por ocasião da Semana Santa. Lera ainda na parte da manhã no JB (Jornal do Brasil), de saudosa memória, da programação que fora permitida pelo comando militar em vista dos últimos acontecimentos. Aquele ano (1968), passados quatro do golpe militar, a repressão chegara ao limite, culminando com a edição do famigerado AI-5 em 13 de dezembro, dia de Santa Luzia. Depois ensejou a publicação pelo escritor e jornalista Zuenir Ventura de seu livro “1968: o ano que não terminou”.
Devo dizer que à frente da famosa passeata vinham, de braços entrelaçados, artistas já famosos como Gil, Caetano, Edu Lobo, Chico Buarque, Torquato Neto, Nelson Motta, Nara Leão, além de grandes nomes do teatro e televisão como Paulo Autran e Tônia Carrero. Todos, vale frisar, sob o comando do maior líder estudantil da época, Vladimir Palmeira, presidente da UME (União Metropolitana dos Estudantes), que, ao chegar ao destino (Palácio Tiradentes) posta-se ao lado de uma das esculturas e faz inflamado discurso contra a ditadura militar. Melhor dizendo, desce a ripa. E eu a assistir tudo, de camarote, vibrando com aquela multidão ordeira que, pelo menos naquele dia, não fez sequer um risco no prédio histórico.
Pois bem. Passados 55 anos, seguindo a máxima de Marx (não o Groucho), de que a história só se repete como farsa, de repente descobre-se que o país não é o “sétimo céu” (no Islamismo significa Paraíso) apregoado a-torto-e-a-direito. Bastou um simples aumento de tarifa no transporte coletivo de grandes cidades para multidões sentirem coragem de sair às ruas do Brasil pedindo medidas outras, urgentes, como controle da inflação, reforma política, saúde melhor e até, se não estou enganado, o exagero de ministérios, cujo número está somente a 1 (hum) dos quarenta. A lamentar em tudo isso, a infiltração de bandidos, desordeiros e vândalos, praticando verdadeiros absurdos, inclusive a depredação de prédios históricos, como ocorreu, desta vez, com o Palácio Tiradentes, pichado, depredado, vandalizado.
(*) Ferrer Freitas é do Instituto Histórico de Oeiras